quinta-feira, 25 de setembro de 2014

NATUREZA MONUMENTALIZADA

NATUREZA MONUMENTALIZADA


Natureza monumentalizada e complexidade discursiva.
Marcello Polinari, Curitiba 2007
Em nossos dias, a busca de uma única resposta, uma única abordagem que defina realmente o que o objeto é tornou-se uma luta inglória. Produzir ciência é produzir um discurso que se aproxime ao máximo daquilo que percebemos de algo, é produzir um discurso fidedigno que nos permita interagir com os objetos complexos com alguma certeza e constância.
Mais que falar de um objeto com toda a certeza e estar certo de que um discurso se apoderou da coisa, como num fetiche, o pensamento complexo fala das múltiplas interações de um objeto que são possíveis de serem descridas o mais fielmente possível. Assim, na relação sujeito e objeto, tudo e sempre que falamos a respeito das coisas que percebemos, falamos apenas da nossa interação, normalmente mediada pelas linguagens  e ferramentas que nos servem de pontes entre nós, os objetos e os interlocutores de nossos discursos.
Assim, mesmo que o objeto tenha uma materialidade óbvia e imensa, como por exemplo, a Serra do Mar, ao produzir ciência, ao produzir conhecimento, ao lidar com o imaginário o que estamos fazendo é uma interação com este objeto e passamos a falar não mais dele, mas do conhecimento e entendimento sobre ele produzido. Não falamos mais da coisa mas da imagem dela produzida, como num espelho, e a respeito do discurso produzido sobre esta imagem/percepção Assim os objetos de conservação ambiental, histórica (...) tem no mínimo uma dupla face: a material e a discursiva a que produzimos e com a qual nos relacionamos mais intensamente. . Existe uma natureza/biomas que  é material e tangível e existe uma natureza (ou bens patrimoniais) produzida como discursos e entendimentos que servem de base, de premissa para outros discursos como uma estética das coisas tombadas.
Quando falamos, como numa tese, da natureza monumentalizada ou como parte do imaginário não tratamos de um ente biológico e geográfico mas sim de um produto discursivo oficial
ou não produzido sobre a coisa , que fundamenta e serve de premissa para outros discursos políticos, econômicos, religiosos.... que justificam e normalizam interações materiais e imateriais em cada conjuntura histórica. Um objeto de preservação pode ter uma infinidade caleidoscópica de abordagens, discursos, interações e apropriações. Um objeto da natureza biológica e geológica quanto maior e mais visível for mais fundamenta os discursos e entendimentos sobre ele produzidos pela ciência e pelo imaginário popular. A grandeza material do objeto de tombamento  reafirma a monumentalidade do discurso e "verdade" científica ou popular.
Como discurso a natureza monumentalizada tem sua face imaterial (conhecimento, consensos) e sua face material geo-biológica como referente deste discurso. Esta face material quanto mais palpável, tangível mais confere realidade e operacionalidade social ao discurso sobre ela produzido. Por isso confunde-se a palavra monumento com o adjetivo grande, quando na verdade monumento significa memorável, mas tendo um referente discursivo material e grandioso mais memorável será para uma população discursiva. Maquiavel falou das grandes obras aos olhos do povo.
Toda monumentalização é uma preservação material de amostras de dadas classes de objetos e também uma celebração amostral publica, e discursiva destes objetos. Assim ela, a preservação oficial e estatal, serve de amostra pedagogicamente utilizada (ferramenta pedagógica) para guiar o pensar, o sentir e o agir do povo em relação àquela classe de objetos e interações.
  Monumentalização como discurso fundador: Os discursos monumentalizantes servem de premissas para outras interações e discursos o monumento caracteriza-se por ser principalmente um discurso fundador de outros discursos entendimentos e interações, um "abre-alas". Ambas (naturezas material e discursiva) podem ser descritas cientificamente com o que e como for possível de ser percebido e entendido  em uma dada interação do pesquisador.
Assim como existe num computador software e hardware há um objeto material referente de discursos que não pode ser aprendido com exatidão ahistorica pelos discursos que o espelha  e são sobre ele produzidos,  existem os discursos oficiais (monumentalizados) e também o imaginário popular que tem neste objeto material seu referente que lhes confere materialidade. Como uma equação: Um objeto um discurso apropriação oficial dele e um discurso apropriação popular dele.

O exemplo mais clássico é o de um machado indígena num museu. Ele deixa de ser machado ferramenta ou arma e passa a ser símbolo de um discurso sobre uma população indígena e suas relações com outras populações.
O que se pode dizer a respeito do objeto monumentalizado (quando já passou para o domínio dos discursos imateriais que abrem alas  e são premissas de outros discursos)? Pode-se descrever o que se percebe do referente dos discursos
(objeto de conservação) e das interações com  outros objetos e com  falantes sobre ele. Pode-se descrever quais discursos e interações predominam. Pode-se falar do objeto amostral e oficialmente monumentalizado ("parquisado") e seu valor em dada conjuntura e do objeto.
Assim, um monumento um referente do imaginário é um objeto multifacetado em suas interações e estas podem ser descritas e também diagnosticar qual ou quais interações entendimentos são predominantes, consensuais. Ou seja descrever o que nos for possivel das múltiplas interações de um objeto (de preservação) e narrar quais são predominantes ao invés da boa ciência que enquadra a coisa multifacetada num único discurso científico.
Isto quer dizer como os monumentos, parques etc., são amostras e instrumentos pedagógicos oficiais do estado para o povo. A preservação visa a coisa material objetivada, recriada em nível discursivo (espelhada) do que a própria coisa material é , pois é este discurso monumental, objetivante que serve de premissa fundadora para outros discursos ambientais, políticos, culturais, econômicos.... para o povo. Então criar um monumento é criar um discurso que o espelha para a população. Esta imagem não necessita ser exata para passar a mensagem pedagógica.
Marcello Polinari

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