quinta-feira, 25 de setembro de 2014

CAIÇARAS E OUTROS POVOS DE SUBSISTÊNCIA

CAIÇARAS E POVOS DE SUBSISTÊNCIA


Caiçaras e outros povos e culturas extintas e em extinção.
Marcello Polinari Dr.
Curitiba, 2009.

Primeiramente vejamos o conceito de sociedade de subsistência. São as varias populações e culturas que não visam o enriquecimento infindo mas apenas viver o dia ou aquela estação do ano. Mesmo no sistema capitalista existem varias populações que não se enquadram 100% nele e não vislumbram nada mais que sobreviver ao inves de acumular infinitamente.

Cultura é produto social no tempo com dupla dimensão: A cultura se complementa com duas faces ou dimensões principais: a face imaterial que são os valores sociais, os padrões de relacionamento social, as crenças, as praticas tradicionais, o imaginário que, na maioria das sociedades de subsistência é tarefa da mãe e das matriarcas ensinarem aos jovens. A cultura tem outra dimensão, a que é voltada para a organização da produção, da força de trabalho familiar e coletiva, da subsistência: são as hierarquias no trabalho, o conhecimento tradicional da produção que diz como as coisas devem ser feitas, o conhecimento de técnicas, materiais, períodos adequados a cada tipo de produto. Esta dimensão da cultura voltada para a produção material, para a organização do trabalho coletivo, familiar ou comunal nas sociedades de subsistência, via de regra, fica a cargo do homem socialmente mais respeitado e tecnicamente reconhecido como mais apto seja ele o pai-de-família ou o patriarca de varias famílias e líder de um clã.

 A cultura material se refere aos produtos sociais, as coisas tangíveis, que se pode tocar por longo tempo de sua duração ao contrario de uma crença ou tradição que existe apenas quando está sendo executada e vivida numa curta interação social e na memória coletiva.
Para que os povos de subsistência sobrevivam, eles tem necessidades materiais e imateriais como a valorização das tradições (patrimônio imaterial) o acesso a abundante produtos da terra, o acesso livre a terra, mar e praias, sem limites de propriedade privada, e outras demandas de cada população. Os povos de subsistência, via de regra, tem baixa tecnologia o que faz com que necessitem de mais recursos naturais para compensar esta baixa tecnologia e obter a subsistência imediata ou para uma estação. A  delimitação de territórios individuais ao modo capitalista vai contra a necessidade coletiva de recursos naturais abundantes.
No Paraná, vários povos ligados a cultura de subsistência, estão desaparecendo.


Os caiçaras
 A palavra tem origem numa armadilha para peixe e também nas casas de tronco de palmitos referida por alguns como caiçara. A população que utilizava estas armadilhas e casas passou a ter a alcunha, apelido que é o nome de sua  armadilha e sua casa.
No litoral desapareceram os caiçaras que eram agricultores de subsistência paulistas e paranaenses do litoral que tinham na pesca proxima da costa e na caça um complemento de sua subsistência, muitos deles nem nadar sabiam. Caiçara era agricultor, era o caipira do litoral. Eles, parte dos povos de subsistência (categoria que cunhei) necessitavam de muita terra, muito mar e muita abundância para sobreviver. Mas a especulação imobiliária impediu que periodicamente trocassem livremente os roçados de lugar para dar descanso à terra; a invasão balneária lhes tirou a praia onde deixavam descansar os barcos. Além da especulação imobiliária, do grilo, a vinda Santa Catarina de pescadores descendentes de açorianos e empresas de pesca com alta tecnologia que reduziram o estoque pesqueiro e dificultaram que tivessem na pesca um abundante complemento da subsistência; a caça foi oficialmente proibida e os animais que eram suas presas quase extintos. 

      Assim, o caiçara sumiu do litoral paranaense. Foi para as favelas. Hoje chamam de caiçaras os descendentes de açorianos (os catarinas) que vieram de Santa Catarina e outros pescadores e nativos do litoral mas eles não são caiçaras, não o são justamente porque não são agricultores de subsistência.
Outros povos como indígenas, faxinalenses, povos descendentes de escravos alforriados, comunidades fechadas de descendentes de europeus também estão em processo de perda da cultura imaterial e material tendendo a desaparecer. Ou seja a cultura material e imaterial é a viga mestra da sociedade e não apenas um amontoado de espetáculos e obras ininteligíveis.
Para que as culturas sobrevivam é necessário que as pessoas e seus processos econômicos específicos, que internamente não tem na lógica capitalista sua base, sobrevivam.
Tem "perito ambiental com Dr. Que é imbecil pois acha que índio deve vender cestaria para manter sua cultura, e se a cestaria não vender quem da de comer para o índio? Se ele vender VW ou Ferrari ou tênis de marca ou refrigerantes pretos e pasteis que vendem ele vai deixar de ser índio? Outros acham que índio não pode criar cabra e vaca, tem que criar paca porque é natural. 

Por exemplo: Quanto, especificamente aos guaranis, eles sobreviveram aos mamelucos, aos padres de varias companhias, as campanhas de extermínio, às reduções, porque enquanto falarem guarani e tiverem um pajé eles são guarani até de terno numa Ferrari. Eles não tem sua base cultural em objetos materiais e sim na própria cultura imaterial, nas suas praticas. Temo os peritos redencionistas que querem salvar povos e culturas fazendo-os produzir coisas naturais como pacas, ervas medicinais, turismo (ecológico) . Da medo, pauuuuura, depois de mais de 20 anos de trabalho com patrimônio cultural.

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