terça-feira, 30 de setembro de 2014

Produção oficial do patrimônio, dos monumentos

Produção patrimônio cultural



Produção oficial e gestão do patrimônio, de monumentos.

Marcello Polinari, Curitiba, 2008

Peço que cite a fonte

Resumo: O patrimônio nominnado histórico, artístico, cultural, ambiental, natural é algo que  tem origem nas sociedades como tudo que existe existe para si, portanto todo patrimônio é social, se refere ao interesse social sobre algo.  Patrimônio significa que algo pertence, está ligado e interessa a alguém, a uma população humana. Monumento significa algo memorável, legendário.
Além do tombamento existem várias leis e recursos para conservar os objetos de interesse de preservação , o principal são os inventários periódicos que além de visarem a conservação funcionam como ferramentas de gestão do patrimônio .

Existem vários nomes para o patrimônio social/coletivo, (aquilo que pertence a uma coletividade...). Cada ramo da ciência lhe atribui e belisca um pedaço, histórico, artístico, cultural. Mas ele, objeto de conservação, só e reconhecido pelo seu espraiamento na sociedade e no tempo. Ou seja todo patrimônio é social e histórico.
Assim como no caso das fontes para a historia que podemos classificar  em resquícios casuais da vida em sociedade e em fontes produzidas (como a historia oral), também o patrimônio tem sua origem nas coisas produzidas por uma população ou em alguma interação que ela adota por ser adequada ao seu modo de pensar e sentir. Também tem origem na produção de intelectuais e elegem objetos para serem alçados a condição de bem comum, patrimônio histórico.... Ou seja o objeto de patrimonialização, monumentalização pode Ter origem na adoção popular de algo que se torna "seu", ou na produção e eleição consciente de algo para ser colocado como modelo de bom e bem comum por um grupo de intelectuais.
O intelectual que faz o ritual de sacralização, monumentalização é consciente do que faz e tenta fazer o melhor possível para criar ícones e símbolos de coisas que como dizia Kant sejam exemplos universais com seus significados indo além de sua materialidade.
O tombamento é amostral
 Não se pretende e nem se pode tombar tudo, tomba-se e registra-se algumas coisas que servem de amostras de boa arquitetura, boa musica, bom convívio na pluralidade social, amostras de florestas... Então, o tombamento é uma celebração de exemplos do que o intelectual julga ser socialmente bom e bem para a civilização ou que apenas incentiva um convívio pacifico entre diversos, o que também é bom. O patrimônio registra e celebra a vida em sociedade no tempo e seus vários aspectos. O tombamento é uma espécie de canonização; os santos, para os católicos esclarecidos, eles são apenas  milagreiros, são exemplos de viver virtuoso e mostram que a vida virtuosa é possível aos homens comuns. Assim o viver socialmente virtuoso deve ser aspirado e buscado pelos homens comuns inspirados nos bens tombados e registrados que servem de exemplos, faróis para navegar a humanidade. Existem exceções de bens tombados, não tão virtuosos como prostíbulos e cenarios de guerra que fazem parte da vida em sociedade mas não se pode considerar estes monumentos como celebração da virtude.
O cotidiano do perito em patrimônio e a produção de bens patrimoniais.
Como foi dito em outro texto neste site, raramente o patrimônio social é apenas municipal porque ele se representa uma região, a cultura é mais regional e não se limita a fronteiras políticas, o que significa que a colaboração entre órgãos e entes de cultura de municípios vizinhos é mais que bem vinda, é adequada e barateia o processo de pesquisa e salvaguarda do patrimônio cultural, histórico, natural...
Um instrumento fundamental de produção e gestão do patrimônio é o inventário regional, temático e periódico. Estabelece-se que a cada 5 anos mais ou menos se fará este levantamento para ver o estado de preservação dos bens eleitos como sendo de interesse de preservação os que estão no universo dos amostralmente tombados e se outros bens necessitam ser incluídos no rol de bens tombados.
O levantamento e arrolamento temático e regional é o primeiro instrumento de trabalho do perito conservacionista. Sem ele não se identifica o que necessita de sua atenção, as demandas populares  e qual o tipo de intervenção necessária.
Estes levantamentos regionais e temáticos de campo são normalmente tratados posteriormente num escritório/laboratório para aperfeiçoar o acesso aos dados formando uma base de dados confiável sobre o estado das coisas naquele ano.
Deste levantamento poderão ser eleitas amostras (de objetos) para negociar com o proprietário para que ele preserve sem necessidade de tombar, ou que serão tombadas contra a vontade do proprietário por representarem interesse social garantido na constituição e leis de preservação.
Se se decidir tombar
Brincamos que só o que sai andando e correndo não podemos tombar. O tombamento vai muito além do tombamento arquitetônico que é o que predominou pós II Grande Guerra. Tombamos bosques, praças, acervos de arquivos, bibliotecas, matas, obras de arte, arquibancadas de campos de futebol, vestígios arqueológicos e os geológicos... Tombar é, antes de tudo, garantir direitos coletivos de interação duradoura que vão além dos interesses individuais imediatos.
Preservação versus política e interesses econômicos.
A advogada ambientalista Maude Nanci J. Motta fez um trabalho de conclusão de curso para o Doutorado em Meio Ambiente da UFPR e sua conclusão é a de que na maioria absoluta dos casos em que o estado toma uma medida de preservação ou conservação trata-se de área de baixo conflito econômico e político por serem áreas e objetos de baixo potencial produtivo e baixo valor econômico no ano em que se tomou a medida de preservação. Isto significa que os órgãos de preservação e conservação da historia, cultura e ambiente tem parco poder político frente a interesses econômicos imensuráveis. Pena que assim seja porque o presevacionismo e o conservacionismo visam o direito coletivo de interações duradouras que vão além dos interesses individuais e imediatos.
Voltando ao processo de preservação: fez-se o levantamento, foram escolhidos objetos e interações de interesse de conservação, tentou-se preservar sem tombar usando da conscientização, negociação com proprietários e em alguns casos não houve outro jeito além do tombamento.
Toda atitude conservacionista visa o bem coletivo, tanto no que se refere a um conjunto de objetos similares, familiares entre si (bosque, casarios, coleções de arte...) com sua lógica orgânica e com relação a uma população que tem interesse e historia coletiva ligada a aquele conjunto de coisas.
Como  tombar algo ou um conjunto significante que serve de ícone para uma população.
O próprio proprietário do objeto ou alguém encaminha um pedido de tombamento via abaixo assinado, ou via representante comunitário, ou alguém inquestionavelmente douto no tema pede em nome da população que algo seja tombado e protocola no protocolo geral, abrindo assim um processo dentro do Estado, Município ou União. Este pedido é dirigido ao Curador do Patrimônio, que literalmente significa Cuidador do Patrimônio, ou quem tem cargo equivalente no município, no estado ou na União protocolando a solicitação e dando inicio ao processo. Via de regra o pedido já vai com argumentos, fotos, registros, documentos que fundamentem o pedido de tombamento. Em alguns casos o próprio Curador do Patrimônio, que também é um curador dos interesses sociais, pode dar inicio a um processo de tombamento quando souber que sua intervenção vai acelerar e assegurar a defesa de interesses coletivos. Assim, são múltiplas possibilidades de início de num processo de tombamento.
Este processo é destinado a um perito pesquisador que vai levantar dados, fazer uma monografia que dirá porque tal objeto é ou não importante para a história, artes e ambiente de uma população. Dependendo da esfera admistrativa e legislação pode existir um Conselho do Patrimônio que diz se algo vai ou não ser tombado. Esta monografia vai instruir o conselheiro relator e seu parecer favorável ou desfavorável ao tombamento. Se favorável e se não houver contestação do proprietári se procede a inscrição no livro tombo e o aviso publico de que aquilo foi tombado. Se se tratar de imóvel no cartório de registros se juntará ao registro uma copia do tombamento para que todo comprador saiba que o imóvel é tombado.
Medidas de gestão do patrimônio tombado e de interesse de preservação
Como foi dito em outro texto deste site, o tombamento não é o único meio de conservar e também não desapropria, o que significa que o ônus da manutenção do objeto tombado é do proprietário, pois o estado não pode por dinheiro publico em coisas privadas, salvo raras exceções.
1 O estado ou município pode criar leis de incentivo que possam dar vantagens aos proprietários de bens tombados. São medidas de incentivo e contrapartida publica pelo privado estar cuidando também do interesse publico. No caso de constar  na lei de tombamento a esfera administrativa pode conceder algum bônus ao proprietário na forma de incentivos fiscais ou permitir construção em outro lugar...
2- Medidas punitivas a qualquer pessoa física ou jurídica que causar malefício a um bem tombado. Estas penas estarão escritas em lei  de tombamento e na legislação que a ampara.
3 – Medidas compensatórias. Na maior parte das vezes vistas como apenas punitivas, mas também podem ser de incentivo ao proprietário. No caso de um proprietário que destrua um bem tombado ou não respeite a legislação de entorno ele será processado e o que gastaria para reparar o dano naquele objeto ou local o juiz junto com o curador do patrimônio decidem onde (outros bens) este recurso pode ser aplicado para compensar o mal feito.
4 – Medidas mitigatórias. Mitigar significa diminuir.
Quando algo de interesse coletivo foi ameaçado ou não tem como se proceder sua recuperação ao estado em que era quando foi tombado ou registrado como patrimônio, o Curador do Patrimônio junto com a assessoria jurídica tentara fazer com que o responsável invista na minimizarão dos danos o que não significa que não possa incorrer também em outras medidas punitivas e compensatórias.
De resto, que sejam eficazes, todas estas medidas e procedimentos devem estar previstos em lei que cria o serviço do patrimônio ou que tomba um objeto individualmente e se fundamentem na constituição e sua defesa de interesses coletivos, difusos.

O PROCESSO DE TOMBAMENTO DETALHADO



O PROCESSO DE TOMBAMENTO DETALHADO
Marcello Polinari, Curitiba 2014-09-29

A palavra tombamento ou tombar. Vem do português arcaico que significava literalmente registrar. No período colonial existiu um departamento português que registrava tudo que pertencia ao rei, à coroa portuguesa para que se tivesse controle destes bens. Ele ficou localizado numa torre chamada Torre do Tombo.

Não sou jurista e mesmo se fosse o objetivo aqui é explicar para a população em geral.

Legislação.
Leis de tombamentos, parecem leis “guarda-chuvas”

Existem algumas leis que são como uns guarda-chuvas ou casas abertas. Elas não são relativas a uma coisa só como um tipo de crime e ponto. Elas permitem que, no correr do tempo se coloquem vários objetos e ações sob seu domínio, no caso das leis de tombamento, para a proteção de interesses públicos.
Estas leis dizem que caso se faça tal processo ou complemento, algo estará sob a proteção ou domínio desta lei.

Assim é a Lei Estadual 1211/53 (ver nos outros itens do site o texto da lei na integra). Esta lei criou o serviço estadual de proteção a o patrimônio, histórico, arqueológico, artístico, natural e cultural. O que esta lei “fez” ou causou:
1- Criou um órgão de Estado para proteger estes bens de interesse público vinculado a Secretaria de Estado da Cultura, dentro deste órgão hoje denominado (Coordenadoria do Patrimônio Cultural/Pr) criou um Conselho do Patrimônio Histórico e Artístico. Estes órgãos fazem o processo de trazer algo para ficar sob o “guarda-chuvas” jurídico da Lei 1211/53 Pr.
2- Ao mesmo tempo ela diz  o que pode ser tombado, ou seja registrado em livros especiais (Livros do Tombo) que a partir desta inscrição/tombamento ficam sob o amparo desta lei e tutela do Estado. Além disto ela descreve minimamente um processo de tombamento.

Então, tombar é fazer um registro de algo num livro oficial, para que fique protegido por uma lei ou códice de leis.

O tombamento é uma ação administrativa discricionária do Poder Executivo, que começa pelo pedido de abertura de processo, por iniciativa de qualquer cidadão (pessoa física ou jurídica), instituição publica ou privada, abaixo-assinado, solicitação do proprietário ou ainda por iniciativa do próprio órgão de conservação estadual. Preferencialmente, como se esta pedindo a preservação de um bem de interesse público. É aconselhável que este pedido venha por meio de abaixo assinado, através de associações, câmara de vereadores que representam uma coletividade ou por solicitação do próprio proprietário.

O que se pode tombar.
Pela lei 1211/53 tudo se pode tombar desde que não seja animal ou pessoa. Bosques, praças, conjuntos de montanhas, áreas marinhas, rios e beiras de rios, acidentes geográficos, sítios arqueológicos, casarios de um determinado período histórico, acervos de documentos, bibliotecas, acervos de obras de artistas, árvores, lugares de trabalho, culto ou lazer coletivo, tradições escritas ou orais, receitas regionais, ou seja “tudo que não possa sair andando com as próprias pernas”.
Voluntário ou não
O tombamento pode ocorrer com a concordância do proprietário ou não sendo então COMPULSÓRIO.

O processo de tombamento.
O processo de tombamento é semelhante a outros processos que correm na burocracia do Estado. Inicia pelo protocolo de uma solicitação no protocolo geral do Estado, dentro da Secretaria de Estado da Cultura (SEEC), endereçado á Coordenadoria do Patrimônio Cultural, e seu representante oficial naquele ano, que é a responsável pelo andamento do processo e por zelar pelo que está tombado.

O pedido de tombamento.
Um bom pedido de tombamento se assemelha a uma monografia, a um excelente trabalho escolar. Aconselha-se que os solicitantes façam um texto expondo os motivos pelos quais julgam que algo é de interesse coletivo, informem quem é o atual proprietário, anexem muitas fotos do objeto que pretendem que seja tombado. Então protocolem esta monografia/pedido no Protocolo Geral na SEEC/PR

O andamento do processo.
Dentro da Coordenadoria do Patrimônio Cultural do Estado (CPC/SEEC/PR) o chefe da divisão vai destinar este pedido para um perito da área, se for da área de história para um historiador, se for arqueologia, arqueólogo, se for natureza para alguém da área, assim  como as belas artes para que este aprofunde as pesquisas de modo a orientar o julgamento de tombar ou não pelo Conselho do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado. Se a (CPC/SEEC/PR) não tiver um profissional da área, pode-se contar com a cooperação de universidades do Paraná para aprofundar os estudos ou até contratar peritos e empresas do ramo.

Notificação ao proprietário
A lei 1211 estabelece prazos para comunicar ao proprietário via Diário Oficial, por AR e/ou jornais que um processo de tombamento foi aberto e se refere a uma propriedade dele. E também prazos para ele questionar ou aceitar.

Fim do processo
Duração de um processo de tombamento: Não existe prazo legal para sua conclusão.
O processo termina com a inscrição em um dos livros do Tombo e comunicação formal aos proprietários de que o tombamento foi concluído e a anexação/averbação do tombamento junto com a documentação publica do que foi tombado. No caso de imóveis é anexado averbado ao registro de imóveis para que, quem compre saiba que está comprando um bem tombado. O processo fica arquivado nos arquivos da  (CPC/SEEC/PR) para sua atualização e consulta pública.


Os livros do Tombo são: 
  • Livro 1 do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico - Nele são inscritos os bens das categorias de arte arqueológica, etnográfica, ameríndia e popular
  • Livro 2 do Tombo Histórico - Inscritos os bens cuja característica principal é serem muito vinculados a um período ou fato da história do Paraná. 
  • além dos monumentos naturais, sítios e paisagens naturais ou antropomorfizadas; 
  • Livro 3 do Tombo das Artes Aplicadas - Inscritos os utensílios, mobiliários e coleções
  • Livro 4 do Tombo das Belas Artes - Inscritos as coisas de arte erudita, de origem nacional ou estrangeira.

CITE FONTE.
FONTE: Internet. Site: http://patrimonioculturaleambientalbrasil.blogspot.com.br/
capturado por (Seu nome completo e data)

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

GESTÃO CULTURAL

GESTÃO CULTURAL


GESTÃO CULTURAL
Marcello Polinari
Curitiba, 2011
O trabalho com cultura é, antes de tudo, um trabalho pedagógico e civilizatório de massa. É educar multidões fora da sala e aula. Ele é lento e paciente, por isto é diferente da educação escolar, mas, como ela, lança mão de vários recursos (inclusive espetáculos) para disseminar, conservar e alterar valores de uma grande população.
Ele não é a face circo de uma política de pão e circo.
É um processo de longa duração que visa reforçar valores civilizatórios contra a barbárie, que nunca descansa e busca a hegemonia.

Conquistar corações e mentes para uma sociedade mais humana, fraterna, justa, menos consumista e desigual é a missão do gestor cultural.

O trabalho do gestor cultural fundamenta-se no seguinte ações:
PESQUISAR = Arrolar, levantar, pesquisar o que existe de registros materiais da vida em sociedade ( cultura material) e de eventos culturais que a sociedade constantemente produz e poucos registros materiais deixam.

INCENTIVAR = A Segunda parte visa garantir a continuidade destes bens materiais e imateriais. A: aos bens materiais eleitos (amostras) como exemplo de civilização, de bom e bem a ser seguido, copiado, reproduzido, para servir de inspiração. B: aos bens imateriais, que são manifestações é necessário conservar quem os manifesta, quem os faz e realiza. É necessário incentivar que continuem a fazer manifestações. culturais imateriais consideradas civilizatórias, boas e belas.
CONSERVAR=  Ações de  conservação dos das coisas e interações eleitas como bens culturais.
DIVULGAR= A divulgação é uma das facetas pedagógicas da gestão patrimonial. Ela lança mão desde monumentos até espetáculo, exposições e o que estiver bem, eticamente, à sua mão.
O Estado, não é onipresente, ele gere por amostragem uma maioria.
Ou seja, toda gestão publica é amostral, não vamos selecionar, salvar, conservar preservar tudo, mas uma boa quantidade de amostras que sirvam de faróis, de exemplos, para a civilização. Isto não significa justificativa para diminuir os já minguados investimentos públicos e privados que se fazem em cultura em nosso país.

CULTURA MATERIAL E CULTURA IMATERIAL

MATERIAL E IMATERIAL


Falando de cultura

Quanto a vida material se torna imaterial e vice-versa, é uma separação epistemológica apenas.
Já disse em outros textos que, depois de mais de 20 aos trabalhando com patrimônio cultural, histórico, material e imaterial, cheguei a conclusão de que 90 % ou mais das relações sociais não resultam em produtos tangíveis e/ou duráveis como acreditaram os materialistas. Esta  trama de interações imateriais é a cultura imaterial que vive no gerúndio, no fazendo, no acontecendo.
Já pensou o inverso social, cultural, ambiental, ecológico; se os 90 % da vida cultural, das relações sociais dependerem de um mínimo de relações materiais (econômicas) e suas regras, à moda marxista/materialista para que garanta a sobrevivência de um povo e onde ficam os 90 % das relações cultuais imateriais, intangíveis  que esse povo produz?
Parece que chegamos ao símbolo in e iang.
O que varia é a predominância dimensional/temporal/espacial de um ou outro numa roda que gira,  esta roda é a historia como relações e interações pluridimensionais. A cada momento, material ou imaterial, anima/espírito ou matéria predomina e faz a roda girar. Como num gerador onde positivo e negativo se alternam para gerar energia.


Marcello Polinari 2014

NATUREZA MONUMENTALIZADA

NATUREZA MONUMENTALIZADA


Natureza monumentalizada e complexidade discursiva.
Marcello Polinari, Curitiba 2007
Em nossos dias, a busca de uma única resposta, uma única abordagem que defina realmente o que o objeto é tornou-se uma luta inglória. Produzir ciência é produzir um discurso que se aproxime ao máximo daquilo que percebemos de algo, é produzir um discurso fidedigno que nos permita interagir com os objetos complexos com alguma certeza e constância.
Mais que falar de um objeto com toda a certeza e estar certo de que um discurso se apoderou da coisa, como num fetiche, o pensamento complexo fala das múltiplas interações de um objeto que são possíveis de serem descridas o mais fielmente possível. Assim, na relação sujeito e objeto, tudo e sempre que falamos a respeito das coisas que percebemos, falamos apenas da nossa interação, normalmente mediada pelas linguagens  e ferramentas que nos servem de pontes entre nós, os objetos e os interlocutores de nossos discursos.
Assim, mesmo que o objeto tenha uma materialidade óbvia e imensa, como por exemplo, a Serra do Mar, ao produzir ciência, ao produzir conhecimento, ao lidar com o imaginário o que estamos fazendo é uma interação com este objeto e passamos a falar não mais dele, mas do conhecimento e entendimento sobre ele produzido. Não falamos mais da coisa mas da imagem dela produzida, como num espelho, e a respeito do discurso produzido sobre esta imagem/percepção Assim os objetos de conservação ambiental, histórica (...) tem no mínimo uma dupla face: a material e a discursiva a que produzimos e com a qual nos relacionamos mais intensamente. . Existe uma natureza/biomas que  é material e tangível e existe uma natureza (ou bens patrimoniais) produzida como discursos e entendimentos que servem de base, de premissa para outros discursos como uma estética das coisas tombadas.
Quando falamos, como numa tese, da natureza monumentalizada ou como parte do imaginário não tratamos de um ente biológico e geográfico mas sim de um produto discursivo oficial
ou não produzido sobre a coisa , que fundamenta e serve de premissa para outros discursos políticos, econômicos, religiosos.... que justificam e normalizam interações materiais e imateriais em cada conjuntura histórica. Um objeto de preservação pode ter uma infinidade caleidoscópica de abordagens, discursos, interações e apropriações. Um objeto da natureza biológica e geológica quanto maior e mais visível for mais fundamenta os discursos e entendimentos sobre ele produzidos pela ciência e pelo imaginário popular. A grandeza material do objeto de tombamento  reafirma a monumentalidade do discurso e "verdade" científica ou popular.
Como discurso a natureza monumentalizada tem sua face imaterial (conhecimento, consensos) e sua face material geo-biológica como referente deste discurso. Esta face material quanto mais palpável, tangível mais confere realidade e operacionalidade social ao discurso sobre ela produzido. Por isso confunde-se a palavra monumento com o adjetivo grande, quando na verdade monumento significa memorável, mas tendo um referente discursivo material e grandioso mais memorável será para uma população discursiva. Maquiavel falou das grandes obras aos olhos do povo.
Toda monumentalização é uma preservação material de amostras de dadas classes de objetos e também uma celebração amostral publica, e discursiva destes objetos. Assim ela, a preservação oficial e estatal, serve de amostra pedagogicamente utilizada (ferramenta pedagógica) para guiar o pensar, o sentir e o agir do povo em relação àquela classe de objetos e interações.
  Monumentalização como discurso fundador: Os discursos monumentalizantes servem de premissas para outras interações e discursos o monumento caracteriza-se por ser principalmente um discurso fundador de outros discursos entendimentos e interações, um "abre-alas". Ambas (naturezas material e discursiva) podem ser descritas cientificamente com o que e como for possível de ser percebido e entendido  em uma dada interação do pesquisador.
Assim como existe num computador software e hardware há um objeto material referente de discursos que não pode ser aprendido com exatidão ahistorica pelos discursos que o espelha  e são sobre ele produzidos,  existem os discursos oficiais (monumentalizados) e também o imaginário popular que tem neste objeto material seu referente que lhes confere materialidade. Como uma equação: Um objeto um discurso apropriação oficial dele e um discurso apropriação popular dele.

O exemplo mais clássico é o de um machado indígena num museu. Ele deixa de ser machado ferramenta ou arma e passa a ser símbolo de um discurso sobre uma população indígena e suas relações com outras populações.
O que se pode dizer a respeito do objeto monumentalizado (quando já passou para o domínio dos discursos imateriais que abrem alas  e são premissas de outros discursos)? Pode-se descrever o que se percebe do referente dos discursos
(objeto de conservação) e das interações com  outros objetos e com  falantes sobre ele. Pode-se descrever quais discursos e interações predominam. Pode-se falar do objeto amostral e oficialmente monumentalizado ("parquisado") e seu valor em dada conjuntura e do objeto.
Assim, um monumento um referente do imaginário é um objeto multifacetado em suas interações e estas podem ser descritas e também diagnosticar qual ou quais interações entendimentos são predominantes, consensuais. Ou seja descrever o que nos for possivel das múltiplas interações de um objeto (de preservação) e narrar quais são predominantes ao invés da boa ciência que enquadra a coisa multifacetada num único discurso científico.
Isto quer dizer como os monumentos, parques etc., são amostras e instrumentos pedagógicos oficiais do estado para o povo. A preservação visa a coisa material objetivada, recriada em nível discursivo (espelhada) do que a própria coisa material é , pois é este discurso monumental, objetivante que serve de premissa fundadora para outros discursos ambientais, políticos, culturais, econômicos.... para o povo. Então criar um monumento é criar um discurso que o espelha para a população. Esta imagem não necessita ser exata para passar a mensagem pedagógica.
Marcello Polinari

Patrimônio, o que é?

Patrimônio, o que é?


Patrimônio histórico, ambiental, natural, cultural, artístico... Será uma caixa preta?
Marcello Polinari, Curitiba 2007
Quanto ouvirmos a palavra patrimônio, necessitamos ter em mente duas ideias: a de algo que foi produzido por e para uma população e a ideia de algo que pertence a uma população e a identifica de algum modo. Portanto produto coletivo e veiculo de identidade através de algo que pertence a população. Porém, certa feita, veio me consultar um jovem mestre que iria lecionar a disciplina de patrimônio para uma turma de turismologos. Eu perguntei: o que você vai ensinar para estes piás? E perguntei sério. Na conversa vi que ele não sabia minimamente a diferença entre cultura material e imaterial ?????? Ele, ao tentar responder, falou de edificações estilos e estética, em no meio da conversa disse que patrimônio histórico, ambiental é uma caixa preta. Eu pensei São Mario Bunge nos proteja Bunge é um epistemólogo. Vamos “dechavar” parte desta confusão, desta “caixa preta. 

Primeiramente, patrimônio não se restringe a edificações que são apenas uma parte uma das partes/dimensões da cultura material, o patrimônio cultural, histórico, ambiental esta ligado a todos os fazeres e produtos dos fazeres, interações, práticas,conhecimentos e humanos coletivos. A lógica linear do é ou não é, não se presta para entender patrimônio pois patrimônio esta dentro da complexidade interativa dimensional, também chamada de teoria do caos. Portanto os estilos arquitetônicos, e as antigas edificações, são apenas uma gota d”água neste oceano de interações humanas múltiplas e estão mais próximos das questões ambientais urbanas que de abarcar linearmente a questão patrimônio. 
Então patrimônio esta dentro das lógicas complexas e não lineares. Contempla toda interação humana coletiva, inclusive e especialmente a produção de ambientes ao transformar biomas em tramas de interações sociais. 

O profissional que trabalha num órgão de patrimônio  tem ou deveria ter clara consciência, de que esta construído um discurso amostral positivo que pedagogicamente incentiva o povo a seguir esta ou aquela pratica e estética no sentido amplo. O tombamento, mesmo sendo amostral, visa interferir positivamente na estética e ética de uma população incentivando a proteger e reproduzir o que amostralmente foi tombado e celebrado monumentalmente como bom. 
Por uns pensarem que patrimônio é o estilo esvoaçante ou não da saia de uma santinha barroca ou o rebuscado de um estilo arquitetônico e não o todo das interações humanas em cada época, não entendem a complexidade que é lidar com patrimônio  material e imaterial,cultural, histórico, ambiental e, ainda mais, que isso é feito sempre de modo amostral, não se tomba tudo. Cria-se ou se enaltecem exemplos positivos e espera-se que se generalizem na sociedade para que ela os adote, copie, proteja e reproduza. Sejam as receitas tradicionais, os vários registros do viver em sociedade, os conhecimentos, as relações humanas, o modo de organizar o trabalho e dividir a produção, o modo de reproduzir biológica e culturalmente uma sociedade, as afeições e ódios coletivos, a religiosidade, os ambientes produzidos moldados para o viver desta população... tudo isso é patrimônio/pertences, é o que pertence a uma população estatisticamente identificável. 
Outro equivoco, além de pensar que patrimônio é só prédios em pé, é pensar que cultura se resume a livros, escolas, espetáculos e shows. Estes são alguns veículos pedagógicos da socialização em massa do conhecimento, partes da cultura de uma população, mas não são a própria cultura. Eventos são instrumentos pedagógicos de ensino popular tanto quanto monumentos que passam valores positivos para o povo seguir, proteger, reproduzir. M. de Foucault ao seu modo e Gramsci de outro trataram muito bem disso, do pastorear o povo que é o que faz um ente cultural tal qual faz uma escola com os alunos. Num órgão oficial de cultura tanto se faz espetáculos e eventos, que, diga-se de passagem, aparecem mais politicamente num dado momento, e também se monumentaliza coisas da coletividade que ficam por indeterminado tempo como exemplo normalmente menos bombástico que um “EVENTÃO”. Porem ambos educam, pastoreiam o povo para a civilização, para as coisas tidas coletivamente como boas. Eventos causam grande impacto no momento, o trabalho com patrimônio causa impactos, suaves, constantes e profundos na sociedade, criam exemplos. Ambos recursos pedagógicos se complementam. 
O trabalho com cultura, historia, natureza, se aproxima ou deveria se aproximar muito do trabalho com meio ambiente, pois ambientes são produtos culturais ao mesmo tempo com suas facetas materiais e imateriais. Os profissionais de conservação cultural, histórica e ambiental  tem os seguintes objetivos e métodos ao seu dispor: 1 LEVANTAR/ levantamento, arrolamento, descrição dos objetos de interesse, cultural, histórico, artístico, natural, ambiental de uma população e território. 2 CONSERVAR/ tomar medidas para a preservação do que é bom, ou do que é coletivamente considerado como bom. 3 INCENTIVAR/ Tomar medidas que incentivem a continuidade do que foi arrolado como patrimônio, bem de interesse coletivo. Isto seja feito a nível/dimensão de uma população, de um município, de um estado e, em casos de mudanças de hábitos ambientais a nível global. 4 Mitigar, reduzir estragos. 5  Punir malfeitores dos monumentos. 6 DIVULGAR/educar para que a população desfrute do que é seu, conserve e reproduza. Como disse patrimônio não cuida só do passado distante, cuida que boas tradições atuais continuem acompanhar o que é bom como quem cuida de uma pequena chama para que ela não apague este é mais importante o trabalho cotidiano de quem trabalha no patrimônio e exige trabalho de campo. No divulgar necessito contar algo que ocorreu nas décadas de 1960 e 70 do departamento de Historia da UFPR. Na época eram jovens, hoje doutores aposentados e alguns que já morreram, estavam cheios de boas intenções ,queriam socializar, divulgar o conhecimento, o que faz parte do trabalho com patrimônio. Saíram pelo Paraná a fazer levantamentos dos tesouros documentais e culturais deste maravilhoso estado. Publicaram alguns relatórios. Ficaram pasmos que documentos históricos começaram a sumir, foram roubados. Assim pararam de publicar pois estavam dando o mapa da mina para ladrões de documentos raros. Moral da historia, divulgar sem antes tomar medidas de conservação é condenar ao desaparecimento aquilo que foi arrolado. Esta era a "caixa preta do patrimônio", boa parte do trabalho de conservação é “um trabalho de formiguinha” sem grandes eventos colossais, mas estes últimos complementam este trabalho como divulgação do que foi feito
     Assim, patrimônio não é uma caixa preta, é só um tipo de trabalho com cultura que visa a educação coletiva e informal e exige profissionais altamente qualificados, trabalho científico e metódico de longa duração, um trabalho de estado e não de uma só gestão, porém se complementa com os trabalhos eventuais, e que normalmente fazem parte da política de uma gestão, e que também ensinam o povo guiando para a civilização e tentando evitar a barbárie.

CAIÇARAS E OUTROS POVOS DE SUBSISTÊNCIA

CAIÇARAS E POVOS DE SUBSISTÊNCIA


Caiçaras e outros povos e culturas extintas e em extinção.
Marcello Polinari Dr.
Curitiba, 2009.

Primeiramente vejamos o conceito de sociedade de subsistência. São as varias populações e culturas que não visam o enriquecimento infindo mas apenas viver o dia ou aquela estação do ano. Mesmo no sistema capitalista existem varias populações que não se enquadram 100% nele e não vislumbram nada mais que sobreviver ao inves de acumular infinitamente.

Cultura é produto social no tempo com dupla dimensão: A cultura se complementa com duas faces ou dimensões principais: a face imaterial que são os valores sociais, os padrões de relacionamento social, as crenças, as praticas tradicionais, o imaginário que, na maioria das sociedades de subsistência é tarefa da mãe e das matriarcas ensinarem aos jovens. A cultura tem outra dimensão, a que é voltada para a organização da produção, da força de trabalho familiar e coletiva, da subsistência: são as hierarquias no trabalho, o conhecimento tradicional da produção que diz como as coisas devem ser feitas, o conhecimento de técnicas, materiais, períodos adequados a cada tipo de produto. Esta dimensão da cultura voltada para a produção material, para a organização do trabalho coletivo, familiar ou comunal nas sociedades de subsistência, via de regra, fica a cargo do homem socialmente mais respeitado e tecnicamente reconhecido como mais apto seja ele o pai-de-família ou o patriarca de varias famílias e líder de um clã.

 A cultura material se refere aos produtos sociais, as coisas tangíveis, que se pode tocar por longo tempo de sua duração ao contrario de uma crença ou tradição que existe apenas quando está sendo executada e vivida numa curta interação social e na memória coletiva.
Para que os povos de subsistência sobrevivam, eles tem necessidades materiais e imateriais como a valorização das tradições (patrimônio imaterial) o acesso a abundante produtos da terra, o acesso livre a terra, mar e praias, sem limites de propriedade privada, e outras demandas de cada população. Os povos de subsistência, via de regra, tem baixa tecnologia o que faz com que necessitem de mais recursos naturais para compensar esta baixa tecnologia e obter a subsistência imediata ou para uma estação. A  delimitação de territórios individuais ao modo capitalista vai contra a necessidade coletiva de recursos naturais abundantes.
No Paraná, vários povos ligados a cultura de subsistência, estão desaparecendo.


Os caiçaras
 A palavra tem origem numa armadilha para peixe e também nas casas de tronco de palmitos referida por alguns como caiçara. A população que utilizava estas armadilhas e casas passou a ter a alcunha, apelido que é o nome de sua  armadilha e sua casa.
No litoral desapareceram os caiçaras que eram agricultores de subsistência paulistas e paranaenses do litoral que tinham na pesca proxima da costa e na caça um complemento de sua subsistência, muitos deles nem nadar sabiam. Caiçara era agricultor, era o caipira do litoral. Eles, parte dos povos de subsistência (categoria que cunhei) necessitavam de muita terra, muito mar e muita abundância para sobreviver. Mas a especulação imobiliária impediu que periodicamente trocassem livremente os roçados de lugar para dar descanso à terra; a invasão balneária lhes tirou a praia onde deixavam descansar os barcos. Além da especulação imobiliária, do grilo, a vinda Santa Catarina de pescadores descendentes de açorianos e empresas de pesca com alta tecnologia que reduziram o estoque pesqueiro e dificultaram que tivessem na pesca um abundante complemento da subsistência; a caça foi oficialmente proibida e os animais que eram suas presas quase extintos. 

      Assim, o caiçara sumiu do litoral paranaense. Foi para as favelas. Hoje chamam de caiçaras os descendentes de açorianos (os catarinas) que vieram de Santa Catarina e outros pescadores e nativos do litoral mas eles não são caiçaras, não o são justamente porque não são agricultores de subsistência.
Outros povos como indígenas, faxinalenses, povos descendentes de escravos alforriados, comunidades fechadas de descendentes de europeus também estão em processo de perda da cultura imaterial e material tendendo a desaparecer. Ou seja a cultura material e imaterial é a viga mestra da sociedade e não apenas um amontoado de espetáculos e obras ininteligíveis.
Para que as culturas sobrevivam é necessário que as pessoas e seus processos econômicos específicos, que internamente não tem na lógica capitalista sua base, sobrevivam.
Tem "perito ambiental com Dr. Que é imbecil pois acha que índio deve vender cestaria para manter sua cultura, e se a cestaria não vender quem da de comer para o índio? Se ele vender VW ou Ferrari ou tênis de marca ou refrigerantes pretos e pasteis que vendem ele vai deixar de ser índio? Outros acham que índio não pode criar cabra e vaca, tem que criar paca porque é natural. 

Por exemplo: Quanto, especificamente aos guaranis, eles sobreviveram aos mamelucos, aos padres de varias companhias, as campanhas de extermínio, às reduções, porque enquanto falarem guarani e tiverem um pajé eles são guarani até de terno numa Ferrari. Eles não tem sua base cultural em objetos materiais e sim na própria cultura imaterial, nas suas praticas. Temo os peritos redencionistas que querem salvar povos e culturas fazendo-os produzir coisas naturais como pacas, ervas medicinais, turismo (ecológico) . Da medo, pauuuuura, depois de mais de 20 anos de trabalho com patrimônio cultural.

PATRIMONIOGRAFIA a história do patrimonio e das praticas conservacionistas

PATRIMONIOGRAFIA






Patrimoniografia

Um discurso sobre o discurso e arquitetura discursiva do patrimônio.
Marcello Polinari,
CURITIBA, julho de 06 2009
Apoderar-se, predominar, distinguir, reafirmar que algo lhe pertence e tem sua imagem e semelhança, sua identidade. Esta é a ideia que subjas a todo discurso histórico e patrimonial pois, história e patrimônio são inseparáveis pois o pertencer, o identificar-se, o possuir o distinguir, necessitam de justificar-se no tempo social, regional e histórico.
Assim como a história, discurso histórico das nações como estados nacionais, nasceu no século XVIII e XIX como "gegiste" que não tinha somente a significação de história, memória ou genese, mas sim de um compendio monumental e incalculável esforço de coleta e reunião de aspectos comuns que uniam e distinguiram um povo como nação e "seu" estado. Também os monumentos patrimoniais, herdeiros deste modo de produzir história, são justificativas monumentais da elite de uma população, no sentido de justificativas e exemplos grades, opulentos e memoráveis, preferencialmente tridimensionais, para um povo predominantemente analfabeto que tem no olhar e no toque tridimensional sua fonte de conhecimento.
Deste modo, monumentos são como pantomimas sólidas, ou imateriais, que se reprisam constantemente para o povo reafirmando o discurso de quem, através dos monumentos ou objetos monumentalizados, diz que estes discursos, esteticas, valores, modos de pensar, agir e viver de um grupo são os padrões civilizatórios, históricos, culturais, ambientais e estéticos comuns de toda uma população que vai muito alem do grupo predominante. Ou seja, a verdade e os valores de alguns utilizam dos monumentos como mediadores e instrumentos "pedagógicos" da universalização máxima destes valores, padrões, modos de viver de alguns grupos... Um monumento é um exemplo a ser seguido como um farol que guia navios a um porto seguro. Monumentos são instrumentos pedagógicos universalizantes de valores, são instrumentos civilizatórios, que afirmam, distinguem e balizam o agir de uma civilização. Todo objeto (material ou imaterial) Patrimônio oficialmente consagrado, como uma carta ou um e mail é sempre uma mensagem, o discurso civilizatório de alguém para quem, a qual população?
Patrimônio e identidade. Patrimônio pode ser visto e entendido como distinguir, orientar e pertencer. Mas este pertencer não é um pertencer como outro no qual o sujeito se apodera de coisas, é um pertencer que se refere a características, valores interações e atributos históricos, sociais, culturais, psicossociais, antropológicos, biológicos, ambientais comuns a uma população. Este é o significado especial da palavra pertencer ligada ao patrimônio, ela se refere a características que pertencem, distinguem e identificam uma população pela predominância destas características na maioria desta população. Ocorre que este pertencer, identificar, agregar e incluir também exige uma diferenciação em relação aos que não comungam da maioria destas características de modo a exclui-los, ou melhor distingui-los em categorias e classes de população devido aos atributos de civilização estabelecidos.
Certos objetos, características (materiais e imateriais) são eleitas como boas a distinguem uma população e lhe serve de norte civilizatório. Assim o que pertence a uma população e a identifica, a distingue mas não pertence a outra população ou civilização que foi distinguida, "excluida". Por serem preexistentes, estas categorias de valores, interações e objetos, as elas formam um códice no qual as pessoas se moldam por adequação ou distinção "exclusão". Podem haver varias categorias de civilização coexistindo numa região pois, o que é padrão civilizatório não é total, é apenas um padrão de interação predominante, para a maioria. Esta intensidade da predominância cambiante é um dos motivos que endossa o método dos "arrolamentos periódicos de objetos de interesse, " bens", pois mesmo o conceito e entendimento do que é um bem civilizatório se altera com os quinquênios, décadas e gerações.
Então patrimônio identifica, inclui e exclui pela maioria das características que pertencem e que não pertencem a um grupo de objetos e/ou a uma população. Ao comparar o que mais se assemelha e o que mais se distingue, identifica-se grupos de coisas ("bens" de alguém) e populações com características diversas. O patrimônio oficial estatal cria nos discursos, práticas e monumentos, cria o lugar social do bom, do bem, do regular (aceitável/passável) e do indesejável para a civilização como dimensões da mesma civilização, da mesma população . Ao fazer isso a ação patrimonial distingue grupos e dimensões interativas de uma população numa região. Assim patrimônio primeiramente cria quadros ideais, imateriais, distingue valores e correlatas praticas materiais de populações que se enquadram em maior ou menor escala, grau e intensidade percentagem de uma população estatisticamente identificável que se enquadra nestes padrões ideais e suas práticas. Deste modo a ação patrimonial, monumentalizante, oficial celebra e cria um território material e imaterial onde "habita o que é dado como bom e bem comum para servir de exemplo amostral para todos.
Patrimônio é uma ciência?
Há vinte anos, patrimônio era uma questão de preservar o que se pudesse de história, cultura e ambiente da racionalidade irracional de um sistema que tudo transforma em coisa, mercadoria e lucro. Há poucos anos patrimônio tende a se constituir como um ramo do conhecimento como a história da Europa ou a História Medieval. Muito disso se deve a tentativa de fazer com que patrimônio saia da alçada da história e da antropologia e vá para o seu lugar economicamente funcional, um conhecimento auxiliar do turismo. Fato é que, um tanto apartado da história, da antropologia, das artes e da biologia, o que era multidisciplinar esta se constituindo num discurso unificado sobre as coisas e interações que identificam culturas, grupos/populações com características histórico-culturais similares.
Coisa semelhante ocorreu com o que chamamos hoje de história que passou a ser um discurso funcional e gregário dos estados nacionais. Quando os estados nacionais se organizavam, necessitavam de uma justificativa que dissesse que tal povo tinha características (pertenceres/bens comuns) que o agregavam e que o diferenciavam dos outros povos e populações e "deveriam" estar agregados entorno de um único governo. Nascia a história como modo de produzir cientificamente um discurso genealógico sobre o passado das grandes nações (que antes não existiam) e junto com ela nascia a historiografia que é uma história dos modos pensar e de produzir história.
Coisa semelhante esta ocorrendo com o conhecimento patrimonial interdisciplinar que se aparta da história e de outras artes e ciências para se tornar uma "ciência auxiliar" da ‘turismologia" e mais adaptada as necessidades pragmáticas, comerciais e comerciais desta ultima. Em função disso estou cunhando o neologismo PATRIMONIOGRAFIA que é um discurso histórico, filosófico e metodológico sobre o discurso patrimonial, seus objetos ("bens") métodos e fontes, analisando-o, tentando entende-lo, aprimora-lo e denotando suas alterações e "escolas". A PATRIMONIOGRAFIA já está sendo produzida em teses de mestrado e doutorado como conhecimento apartado da historia e da antropologia, já existe um cabedal conceitual próprio, mas ainda não tinha sido batizada. É o que fazemos agora.
A crise dos métodos científicos, da delimitação das coisas e da coincidência entre discursos e coisas, a dita crise epistemológica não deixou o conhecimento sobre patrimônio e os modos de produzir patrimônio (que chamo patrimoniografia) impune e imune a ela.

Todo método científico necessita distinguir, separar e agregar coisas, universos amostrais/populações, interações e dar nomes a isso. Polinari em sua tese de doutorado em Meio Ambiente e desenvolvimento
[1] , após longo embasamento teórico, reafirma a necessidade de identificar amostralmente, estatisticamente universos, populações, onde coisas semelhantes acontecem e operam socialmente, sejam quaisquer objetos, edificações, interações materiais e imateriais, tradições, estéticas, bens culturais práticas ou valores e narrar com a melhor exatidão possível este universo/população e objetos materiais e imateriais da cultura não visando apenas descreve-los mas buscando descrever como interagem e interagiram.

Patrimônio Cultural Imaterial

Patrimônio Cultural Imaterial



Patrimônio Cultural Imaterial; os lugares (Ensaio)

Marcello Polinari, Curitiba, 2008

 

RESUMO

Quase todo patrimônio cultural é composto pela cultura imaterial da qual uma parcela ínfima se materializa em objetos tangíveis. A gestão do patrimônio imaterial depende da facilitação da continuidade do modo de vida das culturas que tornam vivo seu  patrimônio cultual imaterial.
SUMMARY
Almost all cultural heritage is mainly expressed by its intangible manifestation. Only a small part of it materializes as a tangible object. And the management of this intangible heritage depends, above all, how the way of life of the peaple and human cultures, which
maintain alive this knowledge. 

Antes é necessário explicar como algumas coisas e conceitos são entendidos: 1 – Patrimônio; 2 – Cultura; 3 - Cultura Material, 4 - Cultura Imaterial.
Patrimônio é significa pertencer e identificar-se com algo, também um ponto de identificação comum, um referencial
Patrimônio histórico: é produto de historiadores que coincidentemente -porque eles tem formação para a critica e autocrítica-  elegem discursos para serem sacralizados como coisas que são bens  valores comunais. O historiador que instrui um processo de tombamento age tal qual outro que narra este ou aquele episódio histórico, deixando de narrar outros e outras versões e abordagens possíveis, ele "escolhe os bons feijões". Assim, teses que comprovam a tendenciosidade do patrimônio são anacrônicas. O historiador que escreve um texto produz um discurso que visa funcionar como amalgama social, tanto quanto aquele que instrui um processo de tombamento e manipula iluminara um objeto como monumento ( monumento é algo memorável para todos) e assim agrega socialmente populações entorno deste monumento que "pertence a todos" ou lhes é dado como referencial comum.
 Pela via Gramsciana, o patrimônio é o conjunto de coisas –tangíveis e intangíveis- que os intelectuais propõe/oferecem ao povo como sendo seus bens, suas ligações comuns, o povo adota como sendo suas e estas coisas assim sacramentadas interferem nas relações sociais, econômicas, intelectuais/mentalidade/imaginário.... Elas ao intervirem nas interações humanas adquirem o caráter de ente ou fenômeno histórico.
     Nem todo monumento é produto imediato de intelectuais doado ao povo como referencial comum de civilização, alguns processos de tombamento tem origem em solicitações populares por serem coisas adequadas ao modo de sentir do povo e seu estar no mundo.
Cultura : A cultura é composta pelo conjunto de conhecimentos compartilhados pelos indivíduos de uma população e pelas práticas e comportamento  aceito pela maioria e por um sistema de valores, pela maioria dos indivíduos desta população. É também o conjunto de objetos e fenômenos materiais e imateriais produzidos por uma população, são os modos de sentir e pensar predominantes, é o modo predominante de uma população produzir e reproduzir o viver material, é também o conjunto das coisas que servem se referenciais que agregam esta população.Portanto: cultura é composta pelos valores, práticas, coisas e locais.  As tradições se enquadram em valores e praticas.
A cultura, ao ser vivida, ao manifestar-se como fenômeno social, tanto produz o pão e o carro quanto um consenso de ética, de beleza, um prato típico ou poesia. A cultura predominante/hegemônica fornece um senso de norte, de direção para uma grande população mas também pode oprimir grupos minoritários. Ela é um produto social complexo que ordena o fazer, o pensar e o sentir de um povo. O agir e pensar não de grupos predominantes também fazem parte da cultura desde que não sejam patogênicos.
Cultura material: é todo resultado/produto palpável/tangível do complexo de interações humanas como uma colheita, um relógio, uma edificação, um livro. São coisas que a mão humana, sem próteses ou outras atividades pode tocar diretamente, ela pode guardar, salvaguardar do tempo, pode até restaurar.
Cultura imaterial: são os produtos das interações humanas que não se pode tocar/intangíveis e perceber por tempo indeterminado, normalmente não se pode guardar na integra e certamente não se pode restaurar. Ela desaparece depois da interação, como uma tecnica de pesca ocorre ao se feita, como uma receita de bolo ou uma dança, são fenômenos, ocorências e não coisas materiais. A cultura imaterial é um fenômeno (ocorrência) que pouco resíduo tangível deixa e é percebida enquanto dura a interação humana que a manifesta. Assim é a música que é mais que o som e é sensível enquanto é representada, o mesmo com a dança, a poesia, os medos de mitos, o sentimento de pátria e patriotismo, um senso ético, a preferência social pelo milho ou pela aveia, o conhecimento tradicional, as crenças religiosas herdadas, a língua ao ser falada/utilizada. Estes objetos de cultura imaterial não tem existência própria  fora dos atores sociais que os estão produzindo no gerúndio pois deles são frutos, se manifestam através das interações humanas, elas lhes conferem existência, o cantar confere existência ao canto, o dançar à dança, o cozinhar à receita. É no complexo das ações humanas sendo vivenciadas que a cultura imaterial vem ao mundo, manifesta-se e possibilita que a conheçamos.
Enquanto a cultura material é fácil  e possível de ser percebida e até manipulada em seus resultados por longo tempo a cultura imaterial é quase um fantasma que depende que seus atores constantemente a executem.
 A cultura imaterial é viva e interligada com a cultura material de um povo. O saber fazer uma casa pode resultar numa casa. O conhecimento tradicional e os valores éticos compõe o cerne da cultura imaterial que nos humanizam e nos permitem criar e recriar a nós e aos ambientes.
Assim sendo, o que chamamos de cultura imaterial deve abranger mais de 90% da cultura humana, dos produtos das interações humanas. Vivendo em sociedade estamos produzindo e reproduzindo ética, linguagem, estética, poesia, música, consensos socialmente predominantes e minorias, (...) um infindo universo de coisas que podemos perceber enquanto estivermos interagindo, mas que, finda a interação são apenas memórias, pouco ou nada de tátil e realmente representativo do objeto de patrimônio resta.
Isto interfere no patrimônio histórico/cultural ao chamar a atenção para o que pode ser eleito para ser consagrado como patrimônio (pertence comum). É fácil perceber que o conjunto do patrimônio protegido é constituído principalmente de edificações e de coisas que podem ser guardadas e assim protegidas e restauradas. A recente atenção dispensada ao patrimônio imaterial requer uma maior participação do historiador das mentalidades, do antropólogo, do cientista da ética, dos poetas, literatos e dos artistas. Estes cuidarão como puderem da maior percentagem das coisas que compõe o patrimônio cultural como vida cotidiana e que estava relegado a um segundo plano, ou plano algum.
Cuidado com as confusões, o modismo do patrimônio imaterial pode fazer com que se classifique registros e resquícios materiais da história, fontes para a história, sítios históricos como patrimônio imaterial ou lugares do patrimônio imaterial, o que é um erro. Patrimônio histórico é passado, patrimônio imaterial é gerúndio. O que tradicionalmente foi classificado como patrimônio histórico ou seja coisas materiais ligadas ao passado, fontes de pesquisa e informação sobre a vida em sociedade no tempo (=história), podem ser confundidas como sendo lugares do patrimônio imaterial, ou seja os lugares onde as interações sociais vivificam no presente o patrimônio imaterial. A diferença parece sutil mas ao patrimônio imaterial cabe mais a tradição vivificada em cada interação em dados locais, é coisa que "tem mais cara de antropologia que de história". Já o patrimônio histórico predomina a base material de registros e resquícios de interações humanas e evoca não a vivificação presente de tradições, mas mais a memória histórica de um passado que pode ter ocorrido há 10 minutos. Os lugares que apenas evocam memória são patrimônio histórico e registro material, os lugares onde as interações vivificam a cada interação no presente velhas tradições (folguedos, festas, culinária, valores, padrões interativos, ética, saberes) são lugares do patrimônio imaterial e tem mais cara de objeto de antropólogo, embora  também sejam adequados a história antropológica.
Um objeto com suas especificidades.
O patrimônio imaterial, e a cultura imaterial da qual ele deriva, são objetos com especificidades. Como ele, patrimônio imaterial só se manifesta nas interações humanas, não da para colocar uma redoma sobre ele como se pode fazer com um objeto de museu, não da para protege-lo de intempéries e principalmente, não dá para restaurá-lo. Este ultimo dado é importante porque, por exemplo, se se parar a cantar um conjunto de canções de um grupo e, décadas mais tarde em outro contexto se incentivar a que outro grupo volte a cantar, já não é mais a mesma coisa, tem outro significado para outro povo. Não há verdadeira "revitalização" no sentido de restauro de uma tradição ou outro patrimônio imaterial. A vivificação do patrimônio imaterial depende de quem o vivifica. Assim, muitas tradições só podem ser autênticas pelas mãos, cabeças, bocas, gestos e trabalho daqueles a quem elas realmente pertencem. Por exemplo: quando se comete um etnocidio com uma população indígena e ela perde seus costumes, não é que necessariamente ela deixe de ser indígena, e depois se tente fazer com que volte a se vestir ou despir, cantar, educar os jovens, comer e produzir alimentos como antes, isto não os fará retornar ao "jardim do éden", eles terão que viver seu hoje a partir de hoje e ser o que são. É fácil criar falsos históricos/antropológicos. A melhor gestão do patrimônio imaterial de uma população fora das instituições de preservação (museus, casas da memória, museus de imagem e som, instituições de patrimônio) ocorre com o incentivo a sobrevivência material do grupo que produz e reproduz aquele aspecto da sua cultura imaterial, isso porque o imaterial norteia as interações materiais e, quase sempre, delas depende.
Assim, a gestão do patrimônio imaterial em muito depende de facilitar a continuidade das interações materiais, a sobrevivência material daqueles que o vivificam. De resto cabem os registros guardados em instituições adequadas, mas estes registros, comparados com o patrimônio imaterial vivo, parecem pobres peças de paleontologia.
Cuidado com panaceias.
São temerárias as panaceias como a plantação de ervas medicinais, a criação de animais selvagens, o artesanato e o turismo como apontadas soluções gerais para subsistência das populações de subsistência ditas "naturais" e suas tradições. Quanto ao turismo cultural há que se questionar o quanto ele colabora para a manutenção das tradições materiais e imateriais em cada caso específico e educa o turista além do lazer. O mesmo deve-se avaliar quanto a alteração dos regimes agrícolas e produtos ao implantar uma panacéia culturalmente alienígena para aquele povo.
Bibliografia básica
BERGER, Peter, & LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade. Tratado de sociologia do conhecimento. Rio de Janeiro Vozes, 1995.
GRAMSCI, Antônio Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1989.
Dados do autor em 2008
Doutor em meio ambiente e desenvolvimento UFPR 1999; Especialista em historia do pensamento contemporâneo, PUCPR 1986; Mestre em história social, UFPR 1989; pesquisador de história do Patrimônio Cultural do Paraná desde 1982 instruindo processos de tombamento.

História dos município jovens. Para pesquisadores de histórias de municipios.

História dos município jovens

Marcello Polinari Curitiba 2007

Tudo tem história, mesmo o recém nascido.
História não significa idade, velhice. História é a narrativa e tentativa de entender e explicar inter-relações entre grupos econômicos, culturais, religiosos, políticos, sociais, migrantes, ambientais... Portanto história é um complexo de inter-relações (aspectos e temas) no tempo. Cada aspecto/tema é como um capítulo de um livro.
A maior parte dos municípios paranaenses são jovens. Isto significa que escrever uma história do município é relatar a história ambiental, econômica, social, saúde, educação, transporte, cultural e política da região, até a criação do município e como esta história foi posteriormente alterada pela emancipação do município.
Para contar a história de um jovem município é necessário coligir documentos sobre aspectos da história da região até a criação do município. Depois como estes vários aspectos/temas foram afetados para melhor ou para pior ou ainda neutra com a independência municipal.
Estes documentos podem ser originais (primários) ou textos de pessoas que já falaram sobre cada tema, tomando o cuidado de verificar se não foram parciais ou se enganaram em suas afirmações.
Então:
1 Crie uma lista de assuntos sobre a região. Produtos agrícolas, artesanato e industriais, os grupos de trabalho, os grupos religiosos, as tradições... Cada tema será um capitulo de sua monografia/livro.
2 Colete cópias de documentos/ e copias de fotos (que são documentos) sobre estes assuntos, use os documentos e devolva os documentos a sua origem. Forme um acervo de cópias referenciado.
3 Escreva sobre a história da região e como o município surgiu nesta região, não pense só no pioneiro pense no povo.
4 Relate o que a criação desmembramento do município alterou (para melhor, pior ou neutro) em cada um dos temas assuntos arrolados e pesquisados.
5 Não existe história neutra. Quem conta um conto ganha um ponto.
6 Faça muitas fotos, da cidade, da natureza, do trabalho, da religiosidade, das tradições, das festas.
7 História não é um índice do IBGE que apenas mostra dados. História é uma narrativa, um relatório interpretativo e explicativo de vários temas sobre o município sua população, ambientes ou outro objeto e esta explicação segue uma linha filosófica.
Município jovem tem história sim e tem patrimônio cultural, histórico, ambiental, ecológico (seus biomas)

A DIMENSIONALIDADE DO PATRIMÔNIO. PATRIMÔNIO HISTÓRICO E A POPULAÇÃO LOCAL .

PATRIMÔNIO CULTURAL E A POPULAÇÃO LOCAL, a dimensionalidade do patrimônio.
Marcello Polinari, Curitiba 2007

Como disse em outro texto publicado neste Blog nem tudo que interessa histórica, artística, paleontológica ou ambientalmente para a maioria dum povo/população de um bairro ou cidade. uma dimensão sócio-cultural-ambiental-geo/politica, vai ter o mesmo valor para os concidadãos de um pais como o Brasil que é outra e que em sua maioria não convivem com este objeto, tradição de interesse local.
Por isso que os serviços de patrimônio se dividem em municipal, estadual, federal, universal/UNESCO. Cada qual cuida dos interesses de uma população e dimensão populacional e territorial.
Ainda escrevemos histórias e criamos monumentos como nos séculos XVIII E XIX para agregar nacionais numa pátria. Monumentos locais, estaduais, nacionais e mundiais. Mas, existem sentimentos de pertencer que agregam populações e  que vão além disto.
Outro fato ligado a pequenas dimensões populacionais, territoriais e políticas como os municípios com poucas décadas de idade é acharem que não tem historia, memória, patrimônio histórico e/ou ambiental porque se trata de uma unidade política relativamente nova. O erro esta em pensar que história são coisas velhas e que patrimônio se restringe apenas a velhos prédios ainda em pé. Parte deste erro compete a nós profissionais do patrimônio que não divulgamos quão amplo é o patrimônio histórico e ambiental para muito além das edificações. Outra parte cabe especificamente aos historiadores, nos quais me incluo, que não divulgam para a população que a história, como entendida hoje, não depende apenas de coisas velhas, mas do momento que acaba de passar e das tramas sociais , políticas, econômicas, ambientais que estão em andamento e nos envolvem hoje. Hoje entendo que História é a narrativa e interpretação dos seres humanos produzindo a si mesmo, as civilizações e moldando o planeta e suas dimensões como o ambientes coletivos. Assim sendo 5 minutos atrás é historia e as tramas de media e longa duração que moldam sociedades, éticas, políticas, ambientes estão ou deveriam estar no universo do discurso do historiador. O que as sociedades fazem consigo e com os ambientes é historia e não depende de idade, de velhice.
Assim um município  por sua emancipação como unidade política é jovem mas como dimensão populacional regional tem longa historia da qual fez e faz parte, o discurso o reci  historiográfico para estes municípios necessariamente passa pela historia de das famílias, do trabalho e da região, bem como que os grupos humanos fizeram na região para adaptar-se e o que fizeram com os biomas para adapta-los como ambientes para seus propósitos. Este discurso segue do geral para o particular (o território e povo do município) até a emancipação, após o que o discurso passa a verter do particular, as interações locais para o geral que são as interações regionais e em maiores dimensões/escalas.
Um exemplo é narrar como uma população diversa se reuniu numa região para transformar biomas em áreas (ambientes) financeiramente produtivas e como isso resultou na criação do município, feito isso passa-se a narrar as interações ambientais que ocorrem no criado município e como elas se relacionam com a região, o pais, os interesses mundiais.
Portanto, mesmo que um território e uma população tenham se emancipado politicamente num período recente eles tem historia social, política, ambiental, cultural ligadas num primeiro momento a região e mesmo emancipados não vão deixar de serem influenciados pela região e por outras dimensões interativas maiores. A emancipação politica não rompe com a história regional.

Patrimonio histórico: será uma caixa preta?

Patrimonio: será uma caixa preta?

Patrimônio histórico, ambiental, natural, cultural, artístico... Será uma caixa preta?
Marcello Polinari, Curitiba 2007

Patrimônio, pertencer, identificar-se com algo, referencial de identidade. 

Quanto ouvirmos a palavra patrimônio, necessitamos ter em mente duas ideias: a de algo que foi produzido por e para uma população e a ideia de algo que pertence a uma população e a identifica de algum modo. Portanto produto coletivo e veiculo de identidade através de algo que pertence a população. Uma espécie de time que junta torcedores.
Porém, certa feita, veio me consultar um jovem mestre que iria lecionar a disciplina de patrimônio para uma turma de turismologos. Eu perguntei: o que você vai ensinar para estes piás? E perguntei sério. Na conversa vi que ele não sabia minimamente a diferença entre cultura material e imaterial ?????? Ele, ao tentar responder, falou de edificações estilos e estética, em no meio da conversa disse que patrimônio histórico, ambiental é uma caixa preta. Eu pensei: São Mario Bunge nos proteja. Bunge é um epistemólogo.
Vamos “dechavar” parte desta confusão, desta “caixa preta. Primeiramente, patrimônio não se restringe a edificações que são apenas uma parte uma das partes/dimensões da cultura material, o patrimônio cultural, histórico, ambiental esta ligado a todos os fazeres e produtos dos fazeres, práticas,conhecimentos e humanos coletivos. A lógica científica linear do é ou não é, não se presta para entender patrimônio, pois patrimônio esta dentro da complexidade interativa pluridimensional, também chamada de teoria do caos.
Portanto os estilos arquitetônicos, e as antigas edificações, são apenas uma gota d”água neste oceano de interações humanas múltiplas e estão mais próximos das questões ambientais urbanas que de abarcar da questão patrimônio. Então patrimônio esta dentro das lógicas complexas e não lineares. Contempla toda interação humana coletiva, inclusive e especialmente a produção de ambientes ao transformar biomas e interações sociais.
O profissional que trabalha num órgão de patrimônio  tem ou deveria ter, consciência, de que esta construído um discurso amostral positivo que pedagogicamente incentiva o povo a seguir esta ou aquela pratica. O tombamento, mesmo sendo amostral, visa interferir positivamente na ética e estética (o sentir) de uma população incentivando a proteger e reproduzir o que amostralmente foi tombado.

Por uns pensarem que patrimônio é o estilo esvoaçante ou não da saia de uma santinha barroca ou o rebuscado de um estilo arquitetônico e não o todo das interações humanas em cada época, não entendem a complexidade que é lidar com patrimônio cultural, histórico, ambiental e, ainda mais, que isso é feito sempre de modo amostral, não se tomba tudo, não se preserva tudo. Cria-se ou se enaltecem exemplos positivos e espera-se que se generalizem na sociedade para que ela os adote, copie, proteja e reproduza. Sejam as receitas tradicionais, os vários registros do viver em sociedade, os conhecimentos, as relações humanas, o modo de organizar o trabalho e dividir a produção, o modo de reproduzir biológica e culturalmente uma sociedade, as afeições e ódios coletivos, a religiosidade, os ambientes produzidos moldados para o viver desta população dentro do que se enquadra o patrimônio edificado. Tudo isso é patrimônio/pertences, é o que pertence a uma população cientificamente identificável.
Outro equivoco, além de pensar que patrimônio é só prédios em pé, é pensar que cultura se resume a livros, escolas, espetáculos e shows, principalmente os ultimos. Estes são alguns veículos da socialização do conhecimento, partes da cultura e de uma população de conhecimento, mas não são a própria cultura. Eventos são instrumentos pedagógicos de ensino popular tanto quanto monumentos que passam valores positivos para o povo seguir, proteger, reproduzir. M. de Foucault ao seu modo e Gramsci de outro tratam muito bem disso, do pastorear o povo.
Num órgão oficial de cultura tanto se faz espetáculos e eventos que, diga-se de passagem, aparecem mais politicamente num dado momento, e também se monumentaliza coisas da coletividade que ficam por indeterminado tempo como exemplo de bem a ser seguido e reproduzido, apesar da monumentalização normalmente ser menos bombástica que um “EVENTÃO”. Porem ambos educam, pastoreiam o povo para a civilização, para as coisas tidas coletivamente como boas. Eventos causam grande impacto no momento, o trabalho com patrimônio causa impactos, suaves, constantes e profundos na sociedade,  ambos criam exemplos. Ambos recursos pedagógicos se complementam. O trabalho pedagógico de massa com cultura, historia, natureza, se aproxima ou deveria se aproximar muito do trabalho com meio ambiente, pois ambientes são produtos culturais ao mesmo tempo com suas facetas materiais e imateriais.
As instituições de conservação tem vários objetivos e métodos ao seu dispor:
1 LEVANTAR/ levantamento, arrolamento, descrição dos objetos de interesse, cultural, histórico, artístico, natural, ambiental de uma população e território.
2 CONSERVAR/ tomar medidas para a preservação do que é bom, ou do que é coletivamente considerado como bom.
3 INCENTIVAR/ Tomar medidas que incentivem a continuidade do que foi arrolado como patrimônio, bem de interesse coletivo. Isto seja feito a nível/dimensão de uma população, de um município, de um estado e, em casos de mudanças de hábitos ambientais a nível global.
4 Mitigar. Diminuir perdas e impactos inevitáveis.
5 Punir e buscar compensações de impactos criminosos e incurias.
6 DIVULGAR/educar para que a população desfrute do que é seu, conserve e reproduza.
Como disse patrimônio não cuida só do passado distante, cuida que boas tradições atuais continuem acompanhar o que é bom como quem cuida de uma pequena chama para que ela não apague este é mais importante o trabalho cotidiano de quem trabalha no patrimônio e exige trabalho de campo.
No divulgar necessito contar algo que ocorreu nas décadas de 1960 e 70 do departamento de Historia da UFPR. Na época eram jovens, hoje doutores aposentados e alguns que já morreram, estavam cheios de boas intenções ,queriam socializar, divulgar o conhecimento, o que faz parte do trabalho com patrimônio. Saíram pelo Paraná a fazer levantamentos dos tesouros documentais e culturais deste maravilhoso estado. Publicaram alguns relatórios. Ficaram pasmos que documentos históricos começaram a sumir, foram roubados. Assim pararam de publicar pois estavam dando o mapa da mina para ladrões de documentos raros. Moral da historia, divulgar sem antes tomar medidas de conservação é condenar ao desaparecimento aquilo que foi arrolado.

Esta é a caixa preta do patrimônio, boa parte deste trabalho é “um trabalho de formiguinha” sem grandes eventos colossais, mas estes últimos complementam este trabalho..
Assim, patrimônio não é uma caixa preta, só e um tipo de trabalho com cultura que exige profissionais altamente qualificados, trabalho científico metódico de longa duração, um trabalho de estado e não de uma só gestão, porém se complementa com os trabalhos eventuais, e que normalmente fazem parte da política de uma gestão, mas que também ensinam o povo para a civilização. 
Portanto, não há "caixa preta" é um trabalho pedagógico de massa. 

Objetos patrimoniados e seus valores. Axiologia patrimonial

Objetos patrimoniados e seus valores

Bens patrimoniais, monumentos e seus valores
Marcello Polinari, Curitiba 2007

A palavra patrimônio significa algo que pertence e identifica alguém, como a nacionalidade,  profissão,  a casa ou o bairro de alguém. Sua companheira é a palavra monumento que significa memorável.

A ideia de patrimônio, de conservar e divulgar amostras de coisas de valor e culto comum  como  casas, parques, artes, documentos,..... pode remontar ao tempo dos faraós, aos relicários medievais, aos lugares sagrados de peregrinação. Porém, começa a tomar a forma atual de um universo de coisas, conhecimentos e interações positivas a serem arroladas, conservadas, incentivadas e divulgadas com o aparecimento do estado nacional (povo/irmão, território, governo) na Idade Moderna. O patrimônio e os monumentos criados ou adotados pelo povo selavam a união dos governados/uma população  com um governo que domina um território.
No final do século XIX surgiu a ideia de modernidade como um mundo que passa tão rápido que não da tempo de senti-lo, percebe-lo em detalhes, cheira-lo, saboreá-lo, "um borrão na janela do trem". Tudo apenas surgiu já desapareceu ou virou lixo. Isto espantava aos viventes da época, final do século XIX inicio do XX. Derrubavam avenidas, bairros inteiros para rapidamente erguerem novos ambientes, tudo mudava rapidamente para se tornar “produtivo e rápido”, todos se sentiam desterrados pelo movimento rápido.
Neste período, virada do século XIX para o XX criaram-se grandes parques nacionais, tombaram-se grandes monumentos, escreveram histórias nacionais para um estado nação e para criar um cidadão (homem comum/igual/fraterno) deste estado. Monumentos duráveis identificavam e davam a sensação de continuidade em meio a tudo que se esvanecia, virava fumaça ao vento. Valores que ficam em meio a coisas que viram fumaça.
Mas o que é um objeto de patrimônio, um monumento?
A ideia de definir, sintetizar com uma só frase ou palavra exata o que algo é e tudo que ele não é torna-se muito difícil ao lidar com patrimônio. Um exemplo clássico que os antropólogos dão é a da machadinha de pedra sendo usada por uma população e a mesma machadinha guardada num museu. Numa ela é um signo que passa uma mensagem, noutra ela é uma ferramenta ou arma. Em cada contexto/dimensão interativa a mesma coisa se altera, pois as interações com ela se alteram os ícones, os signos, a linguagem funciona em seus usos como dizia Wittgenstein. Assim os objetos de patrimônio são valorados de modo diverso em cada dimensão interativa, em cada contexto.

 Na década de 1930 surgiram leis e decretos que permitem tombar coisas como bens de interesse publico, patrimônio composto de bens de interesse publico.
No Brasil a "escolha" entre modernidade e tradição gerou também este binômio esquizofrênico. Surgiu a opção ser moderno mudar tudo e ao mesmo tempo conservar algo de bom do passado ou colocar este algo de bom no altar na nação para identificar os cidadãos a que este bem pertence. O Brasil ficou dividido entre o mundo agrário e o industrial desde a década de 30. Isto vai refletir nos objetos tombados.
O bem, o patrimônio, o monumento identifica a quem ele pertence de modo semelhante a um crachá de uma empresa.

Um monomento pode ser uma escolha de um profissional do patrimônio para registrar um evento histórico. Num a região onde houve um grande evento com varios locais possiveis de serem tombados ou monumentalizados pode-se escolher um como mais significativo para representar o todo. Por exemço, numa região houve um grande conflito de terras que foi importante para o território paranaense como a Revolta dos Colonos do Sudoeste. Lá existiram centenas de lugares que foram palco deste longo evento, o que tombar, o que monumentaliza como marca deste evento? Não se pode tombar tudo, tombamento, como digo, é exemplo, exemplar e amostral. O que se tombou, por opção consciente de criar um monumento, foi o local onde a revolta acabou, toubou-se a prefeitura que foi sitiada e, no dia, se transformou numa casamata ninho de metralhadoras.
O patrimônio espelha os entendimentos da produção patrimonial do período (que chamo patrimoniografia), o sentir de uma população em um período, as condições políticas, recursos pedagógicos de educação de massa para a civilização e não a barbárie.