QUILOMBOLAS, QUILOMBOS E FAXINAIS DOS PRETOS.
Ensaio, Marcello Polinari, Curitiba. 2014
Hoje
a palavra quilombola é usada como um gancho para um maketing social e econômico
para ONG’s, não é nem cultural porque na maioria das vezes trata-se de um falso
histórico. Penso que a maioria destas comunidades deveria ser preservada como
“faxinais dos pretos” e não como quilombo, seria cientificamente mais honesto.
Resumindo
a historia do escravismo no Brasil os pontos principais são os seguintes:
O
inicio do escravismo no Brasil.
Os portugueses
católicos (junto com italianos e judeus de várias “nacionalidades”) se lançaram
a buscar novas rotas comerciais marítimas porque seus inimigos históricos, os
muçulmanos tinham se apoderado da porta, da principal artéria do comercio mundial da época entre o oriente
e o ocidente que é o Estreito do Bósforo . Fato conhecido como queda de
Constantinopla.
Europeus
já sabiam que havia um mercado para escravizados africanos mas não sabiam como
funcionava a rede de escravização e trafico e como poderiam lucrar com isso ou
não tinham grande acesso a ela. Mas, nas andanças, navegações e guerras
de conquista na África, entraram em contato e conflito com muçulmanos que eram
os que lucravam com as guerras entre tribos que
vendiam a eles seus inimigos na condição de
escravizados já a partir da primeira venda lá na África. Ele, inimigo
tribal derrotado, já era tornado
mercadoria e não pessoa na primeira venda.
E ele passaria por varias vendas e acumulação de preços até quem pudesse
negociar esta “mercadoria” em longínquos mercados com melhor preço. Outros
povos como holandeses e ingleses também traficaram muitos escravizados das
guerras tribais e depois as incentivaram para obterem mais escravizados. (Sempre
tive dificuldade com a palavra escravo por dar uma idéia de algo natural, ao
contrario da palavra escravizado que expõe uma chaga social, humanista e ética
econômica).
O açúcar e o
tabaco eram moedas valiosas e faziam parte de um triângulo comercial entre
Europa, África e Américas que exportavam estas mercadorias e recebiam
escravizados. Ou seja: nas suas guerras de conquista na África os portugueses
só se infiltraram num mercado desumano que já existia e passaram a lucrar no
triângulo comercial a partir do século XVI. Este foi o inicio do escravismo no
Brasil. Ele não surgiu de uma cartola de algum mágico economista português
quinhentista.
O meio da
história.
Todos conhecem
as atrocidades cometidas e um escravismo à brasileira onde em períodos de alta
valorização dos produtos de exploração e baixo preço dos escravizados eram
postos a trabalhar até morrer num sistema chamado “quingingu ou quingungu”
trabalhando no pesado de dia e em coisas leves como descaroçar algodão a noite.
Aqui até escravos eram possuidores de escravos. Até o escravismo tinha um
jeitinho brasileiro que o degenerava institucionalmente.
O fim oficial
do escravismo
O fim foi
quando a Inglaterra se industrializou e necessitava de clientes para seus
produtos. Como escravo não é um consumidor livre, ela baixou um decreto[1]
mundial contra o tráfico. Assim, a Inglaterra, (a potencia mundial da época) colocou
nos 7 mares sua poderosíssima frota armada para capturar navios negreiros
(tumbeiros) libertar os prisioneiros e
queimar os navios. Um caso de reação no Brasil contra as decisões mundiais
inglesas que caçavam navios negreiros após a proibição do tráfico foi contra uma destas belonaves inglesa o
Cormorant. Foi a única vez que a fortaleza da Ilha do Mel
entrou em ação no final do século XIX que tentava capturar navios negreiros da elite
parnanguara anos após a proibição do
trafico. Tem muito nome de rua que na época eram traficantes ilegais de
escravos.
Os senhores de fazendas, quando viram que era inevitável
continuar com o escravismo e que perderiam sua mão-de-obra tomaram três
atitudes: 1) levar o Estado a criar um fundo de indenização pela perda dos
escravos (como o PSDB fez para os bancos que “quebram” e nossos impostos os
socorrem). 2) escolher as piores e mais íngremes terras (tembés) das fazendas e
doar para seus escravos agora libertos, e modo que continuassem a morar em suas terras como agregados que lhes
prestavam serviços quase gratuitos e sem
necessidade de serem comprados e mantidos, porque trabalhavam sua roça e
criavam animais de pequeno porte como
algumas galinhas porcos e raramente mais que 2 vacas por família. Alguns destes lugares se transformaram em faxinais negros-hibridos,
mas não em quilombos ou ex-quilombos. 3)
Incentivar a vinda de imigrantes.
Quilombos
e quilombolas, falando sério.
Nos dicionários,
quilombo significa reduto de escravos foragidos.
Acontece que os proprietários de fazendas tinham sua propria policia, ou
melhor milícia, e até patentes militares. Seus subordinados, e especialmente os capitães do mato ou os que tinham o “oficio
dos sertões” que era outro nome do mesmo, conheciam cada palmo do interior
e não demoravam em capturar os fugitivos que eram açoitados e o líder que quase
sempre era morto em praça publica ou na frente dos escravizados da fazenda. Não
dava nem tempo de construírem palhoças e plantarem milho e mandioca pra comer.
Raríssimos foram os quilombos no Brasil que duraram mais de um mês ou uma
estação. Então, romantismo a parte, tenham em mente que fugir das fazendas e
não ser encontrado ou recapturado ou revendido como escravo era dificílimo.
Hoje falsamente (falso histórico) usam a palavra quilombo
para comunidades de descendentes de africanos libertos para se transformarem em
agregados das fazendas, estes redutos não eram redutos de foragidos.
Hoje, mais de 90% por cento do que chamam de quilombos tem origem
em escravizados alforriados (já livres, alforriados, libertos) que ganharam
terras e ali constituíram uma comunidade, que como disse algumas se
transformaram em faxinais, o que não se caracteriza como ex-reduto de escravizados
foragidos que caracterizaria um quilombo e historicamente. Se tivesse sido
algum dia reduto de escravos foragidos que driblaram os capitães do mato e a
policia estatal, justificaria que hoje se pudesse chamar o local e o ambiente
dali como “antigo quilombo”, “ex-quilombo” e seus habitantes como descendentes
de quilombolas. Mas na maioria são descendentes de agregados de fazendas pela
esperteza do latifundiário. Não se pode esquecer do que propuz, verificar se
eles se organizaram em um “faxinal dos pretos”. Um faxinal destes, pelo que
entendi, existiu em Castro, Paraná. Era o Faxinal do Sandamo/ derivação de San
Damásio (pesquisas que fiz na região na década de 1990).
Portanto, a palavra quilombola, na maioria das vezes, é um
falso histórico que é usado com interesses políticos e econômicos e marketing
social por ser naquele local um falso histórico.
Sim houveram raros quilombos, mas cada caso é um caso. Por exemplo, Palmares só acabou porque o latifúndio
queria as férteis terras de massapé onde ele se localizava.
Bom proveito, comentem, citem a fonte. Agradeço
[1] Ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Bill_Aberdeen Capturado da Internet por Marcello Polinari
em 0910/2014
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