sexta-feira, 10 de outubro de 2014

FAXINAL: FAXINAIS PARANAENSES



FAXINAL, UM SISTEMA SOCIAL E ECONÔMICO.

Tenho por hábito começar textos com algumas definições e conceitos sobre o tema, para depois discorrer a respeito, “costurar as ideias e proposições”. Vejamos algumas citações sobre faxinal.

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Origem do nome
O nome "Faxinal" significa "campos abertos de matos curtos" Faxinal Palavra formada pelo termo “faxina”, acrescido do sufixo nominativo “al”. O termo “faxina” vem do italiano “fascina’’, designando região de campo, entremeada de arvoredo e trecho alongado de campo que penetra na floresta ou ainda campo de pastagem cortado por arvoredo esguio (mato ralo constituído de pinhal, taquaral, erval etc.). O sufixo “al” origina-se do latim “ale”, significando coleção ou quantidade [1].


Mário César Sebben (PR) em 28-06-2010
Faxinal: uma quantidade de terra que não era habitada e ainda sem proprietário, que foi conquistada por desbravadores. Cada um desses desbravadores fica com um pedaço dessa terra, mas não dividem as propriedades com cercas e todos criam seus animais soltos nas terras um dos outros, identificados pelas marcas de cada um [2].

Na região Centro-Sul do estado do Paraná encontra-se um sistema agrosilvopastoril tradicional, chamado de Sistema Faxinal. Este modo de uso da terra, de forma genérica, pode ser dividido em dois espaços se parados por cercas ou valos: as “terras de criar”, que são áreas de uso comum dos moradores nas quais se preserva  a Floresta com Araucária e onde se encontram suas casas e se us animais; e as “terras de plantar”, que se constituem em áreas de uso particular de cada morador, onde se desenvolve a agricultura de subsistência [3].

Origem dos faxinais.
            Faxinais derivam de tradições européias de bosques e campos de uso comunal, é muito possível que foram os jesuítas que trouxeram esta tradição de uso do solo e organização social da produção.


“Estes autores trazem o enfoque da construção do sistema através do processo histórico das experiências do cotidiano e das relações sociais como, principalmente, uma herança cultural da forma de ocupação da terra implantada pelos jesuítas espanhóis da parte ocidental do Paraná, ou seja, das reduções jesuíticas.
NERONE embasada em vários autores ibérico-europeus, salienta que o uso da terra nos faxinais não se constitui num modelo original brasileiro, sendo derivado de outras formações históricas. Ela mostra que as propriedades coletiva e individual aparecem paralelamente, podendo ser entendida como um fator cultural de cada povo ou época. Foi a insuficiência de pastos em propriedades individuais diante da necessidade de pastagens que levou ao uso comum das áreas, sejam elas sem donos (estepes do centro da Ásia), terrenos baldios ou ainda localizadas em pequenas propriedades particulares. Foi deste modo de uso que nasceu o modo de servidão designado “compáscuo”.
A Península Ibérica, que era habitada por povos autóctones conhecidos como Iberos e que após o ano 6000 a.C. sofreu invasões de povos de origem indo-européia, possuía modos de vida comunitários. Mesmo com todas estas invasões, segundo NERONE, as formas de vida comunitária mantiveram-se. A autora reforça esta questão ao falar sobre os romanos, povo que chegou na península por volta de 218 a.C.. Os romanos, cuja propriedade individual era a vila, quando invadiram a Península, não impediram, a manutenção da tradição com relação aos pastos de aproveitamento coletivo debaldios, compáscuos, além de outros direitos de fruição”. (NERONE, 2000, p.30 In: apud SHUSTER. W.T 2009)[4]

            Eu, pensando sistemas como dimensões interativas (Teoria do Caos) e em MOURA[5] , gostaria de classificar e dizer que um faxinal é um sistema econômico diferenciado internamente  que nas suas relações externas interage com o capitalismo. Porém dentro das ciências lineares e da economia clássica um faxinal não se enquadra no conceito de sistema econômico, principalmente por não ter um ordenamento jurídico reconhecido formal.
            Segundo Carlos Escóssia[6]
Um sistema econômico pode ser definido como sendo a forma política, social e econômica pelo qual estar organizada uma sociedade. Engloba o tipo de propriedade, a gestão da economia, os processos de circulação das mercadorias, o consumo e os níveis de desenvolvimento tecnológico e da divisão do trabalho.
De conformidade com sua definição, os elementos básicos de um sistema econômico são: 1) os estoques de recursos produtivos ou fatores de produção, que são os recursos humanos (trabalho e capacidade empresarial), o capital, a terra, as reservas naturais e a tecnologia; 2) o complexo de unidades de produção, que são constituídas pelas empresas e; 3) o conjunto de instituições políticas, jurídicas, econômicas e sociais, que constituem a base de organização da sociedade”.

Mesmo assim vou insistir que um faxinal é um sistema sócio-economico calcado no conceito de sistema.
Sistema :
Um sistema (do grego σύστημα systēma, através do latim systēma), é um conjunto de elementos interconectados, de modo a formar um todo organizado. É uma definição que acontece em várias disciplinas, como biologia, medicina, informática, administração. Vindo do grego o termo "sistema" significa "combinar", "ajustar", "formar um conjunto".
Todo sistema possui um objetivo geral a ser atingido. O sistema é um conjunto de órgãos funcionais, componentes, entidades, partes ou elementos e as relações entre eles, a integração entre esses componentes pode se dar por fluxo de informações, fluxo de matéria, fluxo de sangue, fluxo de energia, enfim, ocorre comunicação entre os órgãos componentes de um sistema.
A boa integração dos elementos componentes do sistema é chamada sinergia, determinando que as transformações ocorridas em uma das partes influenciará todas as outras. A alta sinergia de um sistema faz com que seja possível a este cumprir sua finalidade e atingir seu objetivo geral com eficiência; por outro lado se houver falta de sinergia, pode implicar em mau funcionamento do sistema, vindo a causar inclusive falha completa, morte, falência, pane, queda do sistema etc.
Vários sistemas possuem a propriedade da homeostase, que em poucas palavras é a característica de manter o meio interno estável, mesmo diante de mudanças no meio externo. As reações homeostáticas podem ser boas ou más, dependendo se a mudança foi inesperada ou planejada[7].

                Então temos que lembrar que até meados do século XX terras no Paraná não valiam quase nada e a burocracia e preço para registro delas era mais caro que as próprias terras. Assim, era comum áreas de posse (áreas que pertenciam ao governo e foram ocupadas por agricultores)  ou que tradicionalmente pertenciam a uma família e o titulo ainda estava no nome do tataravô ficando a área para uso comum dos descendentes. Isto gerou vários conflitos agrários entre posseiros sem titulo e grileiros que obtiveram o titulo da terra e tentaram expulsá-los. Ou seja: terras quase sem valor e documentos caros e complicados resultavam em áreas ocupadas sem titulo.
            A origem  do sistema produtivo sócio-econômico-ambiental dos faxinais, muito provavelmente tem origem na tradição medieval européia de uso comunal de bosques e pastos. Junto a casa ficavam os chiqueiros, galinheiros e cercados para a criação de pequenos animais para consumo como galinhas, porcos e ovelhas que via de regra eram  responsabilidade da esposa e filhos do agricultor.
            A área agrícola não era propriedade de ninguém, todos podiam fazer seu roçado, sua tigüera onde bem entendessem. Dificilmente a roça de milho e feijão de uma família ultrapassava dois ou três alqueires. Na agricultura, nos períodos de grande demanda de mão de obra como no plantio e na colheita, era comum o povo se organizar para ajudar o vizinho, eles chamavam isto de pixirão ou puxirão, mutirão.  A palavra pixirão provavelmente vem de peixe com pirão que era servido aos que ajudaram na roça da família em lugares próximos ao mar e rios. O agricultor convidava os vizinhos para lhe ajudarem a plantar e colher. No final do dia era normal um baile, um arrastapé, onde os donos da casa serviam um jantar para os convidados, normalmente de pequenos animais e raramente de um boi ou vaca. Alem da grande área de pastagem comunal também eram comuns os bosques de araucária que serviam de abrigo para os animais e fornecimento de lenha e madeira. A casa da família. Quando um casal de jovens se casava eles escolhiam um lugar “virgem” onde nunca foi construída uma casa.

            O conceito de propriedade.
O conceito de propriedade, tanto para os faxinalenses como para a maioria dos povos de subsistência[8], estava mais relacionado ao uso, aquilo que se está usando e não a um domínio atemporal via um documento. Então algo é seu enquanto estiver usando e estiver próximo de seu corpo ou sua casa. Porém, o gado vacum e cavalar era marcado nos faxinais e um vizinho avisava o outro se algum animal se desgarrasse muito. Dificilmente alguma família mantinha mais que 20 ou 30 cabeças de gado no  faxinal.  O fogo era um instrumento de limpeza do terreno depois da derrubada da mata para abrir área agricultável que depois de dois ou três anos era deixada para se regenerar (sistema de arroteamento).
Não usavam cercas, mas valetas faziam algumas demarcações de uso prioritário. Quando começaram a se relacionar com colonos europeus e seus descendentes no Paraná, os faxinalences falavam de “cercas espiritadas”. Eram cercas que durante as noites avançavam sobre a área comum (o comum)  reduzindo a necessária abundância de recursos coletivos, na realidade era grilo de terras. 
Para os povos de subsistência, incluindo os faxinalences, é comum a crença que a abundância, a riqueza tem ligação com rituais mágicos e não com um processo de acumulação. Os povos de subsistência, não são “ecológicos” é que para compensar a baixa tecnologia, necessitam de grandes extensões de terra e mar com muitos recursos para poucas pessoas e necessitam regular a relação entre demanda e oferta abundante de recursos.
Faxinais  são um modelo  muito interessante para a agricultura familiar, poderia se conceder áreas para a vila rural e uma área de cultivo comum, a qual nenhuma família ou indivíduo poderia se apoderar legalmente.
Faxinais em extinção.
Como “o comum” como chamavam a área comunal, via de regra não tem registro cartorário,  vem sendo apoderado por vizinhos do faxinal e até por descendentes de faxinalenses que pedem usucapião e não querem mais viver no sistema comunal. Sem o pasto e o bosque comunal e o pixirão ou puxirão não existe faxinal.











Sugestões de leitura

Faxinal fonte: http://www.geografia.fflch.usp.br/inferior/laboratorios/agraria/Anais%20XIXENGA/artigos/Schuster_WT.pdf. Capturado da internet por Marcello Polinari em 09/10/2014



[1]Faxinal Fonte   http://pt.wikipedia.org/wiki/Faxinal. Capturado da internet por Marcello Polinari em 09/10/2014
[2] Faxinal  Fonte:  http://www.dicionarioinformal.com.br/faxinal/. Capturado da internet por Marcello Polinari em 09/10/2014.
[3] Faxinal fonte: http://www.geografia.fflch.usp.br/inferior/laboratorios/agraria/Anais%20XIXENGA/artigos/Schuster_WT.pdf. Capturado da internet por Marcello Polinari em 09/10/2014

[4] Faxinais, fonte: http://www.uff.br/vsinga/trabalhos/Trabalhos%20Completos/Wladimir%20Teixeira%20Schuster.pdf. Capturado da internet por Marcello Polinari em 09/10/2014.
[5] MOURA, Margarida Maria. Camponeses. São Paulo. Ática, 1986
[6] Sistema econômico, fonte:  http://www.carlosescossia.com/2009/10/o-que-e-sistema-economico.html. Capturado da internet por Marcello Polinari em 09/10/2014 .
[7] Sistema, fonte:  http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema . Capturado da internet por Marcello Polinari em 09/10/2014

[8] Povos de subsistência é uma categoria que cunhei para designar os povos que não visam a acumulação infinda e via de regra trabalham, não raro em comum, para subsistir a próxima estação ou até a próxima colheita ou período de abate de animais.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

QUILOMBOLA, COMUNIDADE QUILOMBOLA OU "FAXINAL DOS PRETOS"




QUILOMBOLAS, QUILOMBOS E FAXINAIS DOS PRETOS.

Ensaio, Marcello Polinari, Curitiba. 2014

 

            Hoje a palavra quilombola é usada como um gancho para um maketing social e econômico para ONG’s, não é nem cultural porque na maioria das vezes trata-se de um falso histórico. Penso que a maioria destas comunidades deveria ser preservada como “faxinais dos pretos” e não como quilombo, seria cientificamente mais honesto.

            Resumindo a historia do escravismo no Brasil os pontos principais são os seguintes:
            O inicio do escravismo no Brasil.
Os portugueses católicos (junto com italianos e judeus de várias “nacionalidades”) se lançaram a buscar novas rotas comerciais marítimas porque seus inimigos históricos, os muçulmanos tinham se apoderado da porta, da principal artéria  do comercio mundial da época entre o oriente e o ocidente que é o Estreito do Bósforo . Fato conhecido como queda de Constantinopla.
            Europeus já sabiam que havia um mercado para escravizados africanos mas não sabiam como funcionava a rede de escravização e trafico e como poderiam lucrar com  isso ou  não tinham grande acesso a ela. Mas, nas andanças, navegações e guerras de conquista na África, entraram em contato e conflito com muçulmanos que eram os que lucravam com as guerras entre tribos que vendiam a eles seus inimigos na condição de escravizados já a partir da primeira venda lá na África. Ele, inimigo tribal derrotado,  já era tornado mercadoria e não pessoa na primeira venda.  E ele passaria por varias vendas e acumulação de preços até quem pudesse negociar esta “mercadoria” em longínquos mercados com melhor preço. Outros povos como holandeses e ingleses também traficaram muitos escravizados das guerras tribais e depois as incentivaram para obterem mais escravizados. (Sempre tive dificuldade com a palavra escravo por dar uma idéia de algo natural, ao contrario da palavra escravizado que expõe uma chaga social, humanista e ética econômica).
O açúcar e o tabaco eram moedas valiosas e faziam parte de um triângulo comercial entre Europa, África e Américas que exportavam estas mercadorias e recebiam escravizados. Ou seja: nas suas guerras de conquista na África os portugueses só se infiltraram num mercado desumano que já existia e passaram a lucrar no triângulo comercial a partir do século XVI. Este foi o inicio do escravismo no Brasil. Ele não surgiu de uma cartola de algum mágico economista português quinhentista.
O meio da história.
Todos conhecem as atrocidades cometidas e um escravismo à brasileira onde em períodos de alta valorização dos produtos de exploração e baixo preço dos escravizados eram postos a trabalhar até morrer num sistema chamado “quingingu ou quingungu” trabalhando no pesado de dia e em coisas leves como descaroçar algodão a noite. Aqui até escravos eram possuidores de escravos. Até o escravismo tinha um jeitinho brasileiro que o degenerava institucionalmente.
O fim oficial do escravismo
O fim foi quando a Inglaterra se industrializou e necessitava de clientes para seus produtos. Como escravo não é um consumidor livre, ela baixou um decreto[1] mundial contra o tráfico. Assim, a Inglaterra, (a potencia mundial da época) colocou nos 7 mares sua poderosíssima frota armada para capturar navios negreiros (tumbeiros)  libertar os prisioneiros e queimar os navios. Um caso de reação no Brasil contra as decisões mundiais inglesas que caçavam navios negreiros após a proibição do tráfico foi  contra uma destas belonaves inglesa o Cormorant.   Foi a única vez que a fortaleza da Ilha do Mel entrou em ação no final do século XIX  que tentava capturar navios negreiros da elite parnanguara anos  após a proibição do trafico. Tem muito nome de rua que na época eram traficantes ilegais de escravos.
Os senhores de fazendas, quando viram que era inevitável continuar com o escravismo e que perderiam sua mão-de-obra tomaram três atitudes: 1) levar o Estado a criar um fundo de indenização pela perda dos escravos (como o PSDB fez para os bancos que “quebram” e nossos impostos os socorrem). 2) escolher as piores e mais íngremes terras (tembés) das fazendas e doar para seus escravos agora libertos, e modo que continuassem a morar em suas terras como agregados que lhes prestavam serviços quase gratuitos e sem necessidade de serem comprados e mantidos, porque trabalhavam sua roça e criavam animais de pequeno porte  como algumas galinhas porcos e raramente mais que 2 vacas por família. Alguns destes lugares se transformaram em faxinais negros-hibridos, mas não em quilombos ou ex-quilombos. 3) Incentivar a vinda de imigrantes.

Quilombos e quilombolas, falando sério.
Nos dicionários, quilombo significa reduto de escravos foragidos.
Acontece que os  proprietários de fazendas tinham sua propria policia, ou melhor milícia, e até patentes militares.  Seus subordinados, e especialmente os capitães do mato ou os que tinham o “oficio dos sertões” que era outro nome do mesmo, conheciam cada palmo do interior e não demoravam em capturar os fugitivos que eram açoitados e o líder que quase sempre era morto em praça publica ou na frente dos escravizados da fazenda. Não dava nem tempo de construírem palhoças e plantarem milho e mandioca pra comer. Raríssimos foram os quilombos no Brasil que duraram mais de um mês ou uma estação. Então, romantismo a parte, tenham em mente que fugir das fazendas e não ser encontrado ou recapturado ou revendido como escravo era dificílimo.
Hoje falsamente (falso histórico) usam a palavra quilombo para comunidades de descendentes de africanos libertos para se transformarem em agregados das fazendas, estes redutos não eram redutos de foragidos.
Hoje, mais de 90% por cento do que chamam de quilombos tem origem em escravizados alforriados (já livres, alforriados, libertos) que ganharam terras e ali constituíram uma comunidade, que como disse algumas se transformaram em faxinais, o que não se caracteriza como ex-reduto de escravizados foragidos que caracterizaria um quilombo e historicamente. Se tivesse sido algum dia reduto de escravos foragidos que driblaram os capitães do mato e a policia estatal, justificaria que hoje se pudesse chamar o local e o ambiente dali como “antigo quilombo”, “ex-quilombo” e seus habitantes como descendentes de quilombolas. Mas na maioria são descendentes de agregados de fazendas pela esperteza do latifundiário. Não se pode esquecer do que propuz, verificar se eles se organizaram em um “faxinal dos pretos”. Um faxinal destes, pelo que entendi, existiu em Castro, Paraná. Era o Faxinal do Sandamo/ derivação de San Damásio (pesquisas que fiz na região na década de 1990).
Portanto, a palavra quilombola, na maioria das vezes, é um falso histórico que é usado com interesses políticos e econômicos e marketing social por ser naquele local um falso histórico.
Sim houveram raros quilombos, mas cada caso é um caso. Por exemplo, Palmares só acabou porque o latifúndio queria as férteis terras de massapé onde ele se localizava.
Bom proveito, comentem, citem a fonte. Agradeço



[1] Ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Bill_Aberdeen  Capturado da Internet por Marcello Polinari em 0910/2014

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Patrimônio histórico/cultural.



Patrimônio histórico/cultural.
Patrimônio cultural, histórico, artístico, ambiental:Conceitos e Pesquisas
Marcello Polinari, Curitiba, 2007
Patrimônio significa algo que pertence a alguém (pertencimento). Portanto quando se diz que um objeto é patrimônio histórico, cultural, artístico, ambiental fala-se que algo que pertence a uma população.
Quando se fala de patrimônio vem a ideia de algo que pertence a toda uma população, portanto com ela se identifica e também é um veiculo para identificá-la como um atributo, uma característica desta população. Assim um objeto tido como parte do patrimônio coletivo também identifica aqueles a quem pertence ao passar a ser um atributo ou característica de identidade popular.
Um exemplo é como quem diz: olha o João, - qual João, - o João do bosque, ou da casa velha ou o violeiro, ou o João da folia de reis, o João padeiro... Assim o objeto que pertence a alguém, uma população "chamada João" torna-se parte desta população e a identifica.
Patrimônio e gregariedade social.
Existem coisas adotadas pelo povo como sendo dele como tradições, métodos construtivos, técnicas de pesca, receitas, cantorias, bosques, praças.... Este patrimônio é o patrimônio cultural, histórico ambiental não oficial, pois o povo tem estas coisas como sendo deles sem que o estado oficialize com um tombamento. Espontaneamente, ou quase, o povo se apega a estes objetos e manifestações que tem como sendo de domínio e identidade comum a uma população estatisticamente identificável. Há também os objetos que são "colados" ao patrimônio histórico, cultural, artístico, ambiental coletivo. Esta cola se da pelo tombamento, por um ato oficial do estado que elege determinados objetos, que servem de exemplo pedagógico  de bom, bem e belo, para educar o povo. Neste caso, é o estado oficialmente dizendo que tais coisas são comuns a uma população e a identificam.
Os objetos e usos do patrimônio, espontâneo ou oficial e tombado alem de identificar tem a função gregária de amalgama social. Por exemplo: os cidadãos da cidade de Castro. A cidade de Castro é patrimônio coletivo de seus cidadãos e eles são identificados e unidos pelo fato de serem cidadãos desta cidade. Assim ser cidadão de Castro é motivo de união de gregariedade no que se refere aos assuntos de cidadania. O mesmo se refere a um símbolo como os egípcios e a esfinge, ou a um prato típico regional, ou a um casario, ou a uma tradição oral. A coisa, objeto patrimonializado coletivamente, identifica e agrega um povo ao redor dela. Portanto o objeto patrimonializado pode ser espontaneamente adotado pelo povo ou a ele indicado oficialmente como patrimônio coletivo através do tombamento, criação de parques, unidades de conservação...
A ação patrimonializante do estado. Quem leu Michel de Foucault viu falar muito mal do poder como repressor. Porém, também viu falar do poder como pastor que guia o rebanho, o poder educador, pedagógico. O estado que cria monumentos tombados para o patrimônio coletivo classifica-se na segunda manifestação do poder, o educador, o pastor, o guia, o pedagogo. Ele ao destacar um objeto entre tantos, ao eleger um objeto para ser um monumento tombado, patrimonializado distingue o objeto como algo bom e bem entre tantos outros. Esta escolha é a criação de uma amostra entre tantos objetos semelhantes.
     Assim tombar é distinguir, diferenciar criar oficialmente uma amostra que sirva de exemplo e represente outros objetos, coisas e interações semelhantes que sejam desejáveis pelo estado que educa, guia o povo. O estado que tomba um colégio entre tantos esta dizendo -olhe é legal construir colégios, frequentá-los, dar educação para o povo através desta amostra tombada que é um instrumento pedagógico para guiar o povo, e diz : Povo faça igual ou semelhante.. O mesmo em relação a um casario com um dado estilo arquitetônico: – Olha tal estilo arquitetônico é legal é bom gosto é uma boa maneira de construir siga isso. A tal tipo de pintura, paisagem urbana ou rural, musicas, tradições que são oficialmente patrimonializadas num tombamento. O tombamento, a criação de um parque ou de uma UC unidade de conservação cria modelos a serem seguidos, ao tornar algo oficialmente um bem coletivo o estado também esta pedagogicamente dizendo: isso é bom siga faça igual ou semelhante.
Todo tombamento é uma distinção/escolha amostral de um universo desejável de objetos, comportamentos, sentimentos, percepções, entendimentos e interações desejáveis. Esta amostra destacada, distinta positivamente como bem comum funciona como o avesso do castigo exemplar foucaultiano, ela é espetacular, publica, grandiosa marcante como o castigo publico porem visa incentivar comportamentos e interações desejáveis e assim exemplarmente, pelo avesso, coibir as indesejáveis. O tombamento educa o povo com amostras de  bom, belo e correto, e serve de instrumento positivo de educação popular.
Assim não é necessário conservar todas, as casas de tal época ou estilo, todos os bosques, todos os arquivos, todas as tradições, mas sim apenas algumas que sirvam amostralmente de instrumento pedagógico para guiar o povo para algo desejável tido como bom em direção a coisas que são consideradas como sendo o bem da e para a população. Assim muitas vezes o objeto tombado não interessa por ele mesmo mas sim por sua função num universo de objetos da mesma categoria e qualidade e por sua função de material educacional, pedagógico do estado. O objeto tombado, patrimonializado é só uma amostra funcional, pedagógica. Não estou dizendo que não se deva conservar estas amostras e outras coisas que não foram tombadas. Ao contrario, apenas digo que o que esta tombado é uma amostra do que é desejável produzir, reproduzir e conservar num universo de coisas, entendimentos, interações, de modo que se deveria conservar muito mais que esta parca amostra tombada.
Além da função pedagógica incentivando por imitação a produção, reprodução e conservação de coisas semelhantes ao que foi tombado, o estado também tomba objetos que pedagogicamente digam publicamente que tal população tem semelhanças "fraternais" e formam o conjunto dos cidadãos, dos iguais de uma nação governada por este estado. Povo, território e governo formam a nação. Os objetos tombados servem de ícones da identidade e agregação deste povo, são uma espécie de cimento, amalgama produzida para que o povo se ache como um grupo com características comuns e cidadãos deste estado.
Por exemplo: ao retirar nomes espanhóis de alguns lugares e colocar nomes lusitanos ou indígenas o estado brasileiro estava criando características gregárias deste estado lusobrasileiro. Ao dizer que o pinhão é o símbolo dos paranaenses está se criando o povo paranaense em torno de algo que o identifica. Existe uma piada sobre os unificadores políticos da Itália que afirma que Mazini teria dito a Garibaldi: Pois é, Garibaldi, criamos a Itália (estado e território) agora precisamos criar os italianos (povo). O estado, ao enaltecer oficialmente, monumentalizar exemplar e publicamente coisas, tradições, hábitos comuns de uma população esta costurando ligações numa população por ele governada para com estas ligações construir o povo que habita um território e obedece a um governo.
Monumento: Como vimos todo objeto, interação, conhecimento oficialmente patrimonializado como bem comum é uma amostra para uso pedagógico do estado pastor e guia. A palavra monumento significa literalmente memorável. Assim algo oficialmente monumentalizado serve para tornar algo coletivamente memorável e fazer com que o povo se identifique com esta coisa tombada como um objeto que lhe pertence. Monumentalizar, patrimonializar é criar objetos coletivamente memoráveis, que sirvam pedagogicamente para guiar o povo e agreguem uma população ao redor de alguns objetos, costumes, tradições, interações, entendimentos, de modo a ser um ato fundador, ato fundacional, que cria o povo de um determinado governo e território. Os objetos monumentalizados, patrimonializados também são pedras fundamentais, são atos fundadores de uma sociedade sob um dado governo. Velar e desvelar. Os historiadores há muito tempo sabem que sempre que, como num quarto escuro, quando se dirige o facho de luz da atenção para um objeto outros ficam na penumbra ou no escuro.
Quando se fala até a exaustão da história do Estado do Paraná, do Território Paranaense descendente de lusitanos paulistas, omite-se e vela-se que até há uns 100 anos boa parte do atual território paranaense tinha grande influencia espanhola e platina e torna-se quase impossível pensar um Paraná espanhol. O mesmo ocorre com os objetos patrimonializados e monumentalizados, eles valorizam algumas características estéticas, ambientais, históricas.... de um povo e ao fazerem isso omitem e até escondem outras indesejáveis. Assim como o elogio, pelo avesso, nega, vela, atitudes indesejáveis também o patrimônio ao desvelar afirmar que algo é bom e é um bem coletivo nega –vela- o que esta fora daquele universo amostral do objeto, interação, entendimento patrimonializado, monumentalizado. Diz-se que cada faraó que subia ao trono metia o cinzel nas pedras dos monumentos para apagar o nome de seu predecessor.Ou seja o patrimônio tombado, oficial, que desvela também vela tudo o que não interessa pedagógica, memorável ou gregariamente ao estado.
Os funcionários do patrimônio não sabem o que fazem ? Não percebem?Sim os funcionários públicos sabem que servem a um estado e mais que ao povo que educam através da criação de objetos patrimonializdos e monumentalizados, sabem que constroem discursos estatais, percebem as relações e conscientemente constroem representações para a coletividade. Assim qualquer pesquisa que questione isso é perda de tempo...O conceito de percepção: percepção é como algo é para mim, é um apoderar-se de algo. Então estudar a percepção patrimonial, ambiental... é estudar como alguém, um grupo, uma população se apropria de algo e não estudar uma vesguisse, um defeito ótico, ou desvios do entendimento. E narrar uma apropriação, uma patrimonialização espontânea ou oficial. Muitas vezes o conceito de percepção é usado erradamente no lugar do conceito de entendimentos, interações diversas. Sugiro que a maioria dos pesquisadores, exceto estetas, linguistas, semiólogos, ao invés de fazerem projetos sobre percepção ambiental, patrimonial... façam projetos sobre a diversidade de entendimentos e interações com os objetos do meio ambiente e do patrimônio histórico, cultural, artístico, natural assim não incorrerão em erros conceituais e descreverão diversidades interativas não como erradas mas como diversas pois não são juizes são cientistas. Ta bom por enquanto.

SEMIÓTICA DOS MONUMENTOS (BENS HISTÓRICO/CULTURAIS)



SEMIÓTICA DOS MONUMENTOS (BENS HISTÓRICO/CULTURAIS)

Primeiro alguns conceitos:

“A Semiótica é a ciência geral dos signos e da semiose que estuda todos os fenômenos culturais como se fossem sistemas sígnicos, isto é, sistemas de significação. Ambos os termos são derivados da palavra grega σημεῖον (sēmeion), que significa "signo", havendo, desde a antiguidade, uma disciplina médica chamada de "semiologia" que é o sinônimo de Semiótica, a ciência geral dos signos que estuda todos os fenômenos de significação e foi usada pela primeira vez em Inglês por Henry Stubbes (1670), em um sentido muito preciso, para indicar o ramo da ciência médica dedicado ao estudo da interpretação de sinais. John Locke usou os termos "semeiotike" e "semeiotics" no livro 4, capítulo 21 do Ensaio acerca do Entendimento Humano (1690).
Mais abrangente que a linguística, a qual se restringe ao estudo dos signos linguísticos, ou seja, do sistema sígnico da linguagem verbal, esta ciência tem por objeto qualquer sistema sígnico - Artes visuais, Música, Fotografia, Cinema, Culinária, Vestuário, Gestos, Religião, Ciência, etc”. (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Semiótica)
Como em todo ramo do conhecimento, também na semótica existem vertentes de abordagem e interpretação.
Vamos usar a abordagem europeia
“(...)Na vertente europeia o signo assumia, a princípio, um caráter duplo, composto de dois planos complementares - a saber, a "forma" (ou "significante", aquilo que representa ou simboliza algo) e o "conteúdo" (ou "significado" do que é indicado pelo significante) - logo a semiologia seria uma ciência dupla que busca relacionar uma certa sintaxe (relativa à "forma") a uma semântica (relativa ao "conteúdo")”. (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Semiótica)
                Então, tudo que existe é portador de significado para alguém, ou vários significados para várias pessoas. Uma placa de estrada significa um rumo para alguém e para outro alvo de sua arma. Os significados diferentes de cada coisa possibilitam interações, relações, usos diferentes desta coisa para varias pessoas, grupos sociais e populações humanas. Assim, resume-se o objetivo da semiótica como sendo: a ciência geral dos signos que estuda todos os fenômenos de significação.
            Fenômeno são ocorrências, acontecimentos específicos de um dado momento. Então, num dado momento (fenômeno interativo) um objeto teve este significado para uma população, mas décadas depois em outra interação teve um significado completamente diferente. Os significados são ocorrências que tem historicidade, mudam em contextos (fenômenos interativos) diversos.
            Na vertente européia da semiótica você vai ter para estudar: 1- o referente do discurso. 2- sua carga significativa como símbolo (significante potencial de entendimentos), ele é algo que é carregado de significados possíveis para varias pessoas, grupos, populações em vários momentos, (fenômenos interativos destas gentes com esta coisa). 3- as significações possíveis fenomênicas  para os vários viventes que interagem com este símbolo, com este caldeirão de significados possíveis.
            Referente do discurso, símbolo, signo, significante.
Referente é aquilo que um enunciado remete. É a coisa sobre a qual se fala, pensa e sente. Ele é o lugar central do discurso[1].
Símbolo é algo que representa o referente do discurso. É como sua foto, seu self, representando sua pessoa. O símbolo fica no lugar do referente e é, via de regra uma construção, uma idealização da coisa sobre a qual se fala, remete a coisa, mas não é igual a ela, mesmo que cientificamente pretenda ser. Quando um símbolo fica no lugar de algo ele é denominado ícone.
De forma rápida: o símbolo representa algo. O símbolo tem uma carta significante potencial que nas interações com as pessoas se transforma em conhecimento/significado. O conhecimento se dá através das linguagens como pontes fenomênicas entre as pessoas.
            Assim, tudo pode ser entendido de várias maneiras por varias pessoas e grupos em vários momentos da história. Isto atribui valores a coisa com a qual nos relacionamos e também ordena o modo de nos relacionarmos, por exemplo, com uma vassoura, uma cadeira, um templo um bosque, uma obra de arte e até com outros grupos sociais. Os preconceitos são cargas significantes que um grupo social atribui ao outro como referente de um discurso.
            Assim como pontes, os signos nos permite, fazer ligações entre a coisa da qual falamos (fofoca da vizinha ou qualquer outra coisa)  o que pensamos dela (um signo uma representação carregada de significados) e o mundo com o qual nos relacionamos disseminando assim um conhecimento, sem julgar se é falso ou verdadeiro.
            Em outro texto deste blog afirmei claramente que trabalhar com cultura é educar as massas, é uma educação informal. Produzir e gerir patrimônio histórico, artístico, cultural, natural, arqueológico, é produzir símbolos. É produzir símbolos, representantes de arcabouço ideológico, e divulgá-los pedagogicamente para a população, com sua carga significante para que a população  faça sua digestão e produza um certo consenso, um conhecimento (falso ou não sobre algo).
            Deste modo, todo objeto de patrimônio, todo “bem cultural”, é um símbolo que está no lugar de um discurso ideológico. Todo objeto de conservação pretende passar exemplos de bom, bem e belo para a população. Este objeto patrimonializado é como uma ponte ou uma carroça carregada entre os entendimentos sociais, estéticos, éticos, econômicos, filosóficos em geral, de quem produz patrimônio e o povo a ser educado nestes padrões “civilizados e civilizatórios”.
            Portanto, assim como os semiólogos estudam os signos e famílias de signos, nós, profissionais da conservação podemos estudar os bens tombados, os parques, as apa’s, as unidades de conservação, como veículos de educação popular nas mãos do Estado e como tal são símbolos de um discurso estatal  com varias cargas significantes possíveis para a população em vários contextos históricos (interações fenomênicas). Então, como uma faca, a produção e gestão de bens de conservação pode servir para vários objetivos nobres e não tão nobres de quem detém o poder.
            O ideal, e um pouco louco é juntar semiótica com a Teoria do Caos que permite ver as sociedades como pluralidade de interações. Então teríamos uma pluralidade de significados possíveis  de algo para uma pluralidade dimensões sociais e não um “povo genérico”. O que a estátua de Drumond, a Serra do Mar, a Monalisa,  significam para  agora os vários grupos sociais que fenomenicamente interagem com estes bens? Daqui a algumas horas estas mesmas coisas para estas mesmas pessoas poderá ter outro significado. Por isto é fenomênico casual, aleatório.
Marcello Polinari
Curitiba 08/10/2014  



Sugestões de leitura

DURANT, WILL. História da Filosofia. In: Os pensadores. São Paulo. Nova Cultural, 1996.
ECO, Umberto. Sobre os espelhos e outros ensaios. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1989.
FOUCAULT, MICHEL. As Palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. 9ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
_________. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro. Graal, 1979.
_________. Vigiar e punir. Petrópolis, Vozes, 1988.
GRAMSCI, Antonio. Literatura e vida nacional. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1978.
_____. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1989.
MAQUIAVEL, Niccolo. O Príncipe. 6 ed. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1981.

SEMIÓTICA: https://www.youtube.com/watch?v=NEbGr0nluHQ Capturado da internet por Marcello Polinari em 08/10/2014

terça-feira, 7 de outubro de 2014

PATRIMONIO HISTÓRICO, FOUCAULT E EDUCAÇÃO PELA IMITAÇÃO




Patrimônio foucault e educação via imitação positiva.
Marcello Polinari. Curitiba 2014       

            Foucault M. fala do exercício do poder como ato pedagógico. Ele fala do poder  como algo difuso não mais concentrado na figura do rei, e fala do povo como crianças ou adultos infantilizados que  devem ser guiados como ovelhas. A punição exemplar visível pública e reafirma o poder disseminado que “tudo   “ vê. O panopticom é a capacidade de fazer com que os indivíduos se sintam constantemente observados pelo o poder difuso na sociedade. Ou seja, punir exemplarmente, introjetar nos indivíduos um certo medo e consciência de que pode ser punido e de que se é vigiado.

Vigiar e punir as prisões[1].

“O que é fascinante nas prisões é que nelas o poder não se esconde, não se mascara cinicamente, se mostra como tirania levada aos mais íntimos detalhes, e, ao mesmo tempo, é puro, é inteiramente "justificado", visto que pode inteiramente se formular no interior de uma moral que serve de adorno a seu exercício: sua tirania brutal aparece então como dominação serena do Bem sobre o Mal, da ordem sobre a desordem (...)E o inverso é igualmente verdadeiro. Não são apenas os prisioneiros que são tratados como crianças, mas as crianças como prisioneiras. As crianças sofrem uma infantilizarão que não é a delas. Neste sentido, é verdade que as escolas se parecem um pouco com as prisões, as fábricas se parecem muito com as prisões”.
PANOTICON
M.F.:
Com o panoptismo, eu viso a um conjunto de mecanismos que ligam os feixes de procedimentos de que se serve o poder. O panoptismo foi uma invenção tecnológica na ordem do poder, como a máquina a vapor o foi na ordem da produção. Esta invenção tem de particular o fato de ter sido utilizada em níveis inicialmente locais: escolas, casernas, hospitais. Fez−se nesses lugares a experimentação da vigilância integral. Aprendeu−se a preparar os dossiês, a estabelecer as notações e a classificações, a fazer a contabilidade integrativa desses dados individuais.


Patrimônio e cultura: educação com métodos pedagógicos híbridos. 1 – Imitação. 2 – Celebração exemplar do bem eleito como inverso punição exemplar Foucaultiana. 3 Midias de massa

Eu entendi em 28 anos que nós profissionais do patrimônio fazemos o que Eliz Regina Cantava : "Te adorando pelo avesso"
Ao invés de punir como Foucault o trabalho com patrimônio é um “vigiar e punir” às avessas. É celebração exemplar de objetos que quando individualizados são ao mesmo tempo universalizados como exemplos de bem, bom e belo a serem seguidos.


Nós profissionais da conservação elegemos e semeamos exemplos  também exaltamos o que nós e a sociedade julgam bem, bom  e belo. Um tombamento é a celebração exemplar do bem eleito exemplo a ser seguido, imitado e  como inverso punição exemplar Foucaultiana.
Não basta criar monumentos, grandes obras e exemplos como sugeria Machiavel para educar o povo, há que faze-lo imitar.


“Depois de seus lares, os alunos descobrem que a escola é o universo mais rico onde a diversidade humana está à  disposição de sua aguçada e encantadora curiosidade.
A aprendizagem pela imitação se dá porque o aluno quer testar sem si mesmo, se o que observa faz ou não sentido para a sua vida, se se vale a pena ou não coexistir com os adultos.
A aprendizagem por imitação é uma atitude inconsciente, isto é, além de ser espontâneo e involuntário, é um processo individual e intransferível. Cada um, incluindo os professores, imita o que quer e do que jeito que sabe, porque somos seres dotados de subjetividade, ainda que o fenômeno ensino-aprendizagem seja pautado por sistemas racionais, conforme nos apresentam as diversas abordagens teóricas.
Para Carl Gustav Jung (1875-1961), imitar é  um método que sempre foi eficiente, até para os doentes mentais. Mesmo quando outros métodos falham, a imitação é eficiente porque se fundamenta “em uma das propriedades primitivas da psique”  (O desenvolvimento da personalidade. Petrópolis: Vozes, 1983, p. 155).
Mas os professores precisam estar atentos aos seus atos, palavras e gestos frente à educação, pois maus exemplos prejudicam e anulam até mesmo o melhor dos métodos educacionais tão conscientemente elaborados”.


            O trabalhar com patrimônio, o transformar coisas, lugares, tradições em monumentos coisas memoráveis, monumentais para serem vistas por toda uma população é “Foucault” às avessas por dar exemplos a serem seguidos e incentivar as massas a copiarem imitarem. Para isto servem as mídias de massa que divulgam os bens tombados.

Nós profissionais do patrimônio somos uma espécie de jornal que divulgamos exemplos a serem seguidos ao criarmos monumentos. Parece simples, mas não é. Olhe entorno a ti. Quantos jovens de 8 a 15 anos buscando uma identidade, valores coletivos, um rumo entre milhares, ou um oficio tradicional que sustente a si e sua família ou o simples fato de se identificarem como mãe aos 13 ou 14 anos ou como parte de uma gangue. Patrimônio vai alem de uma ou outra casinha  chickkk que ornamente uma cidade, como uma pérola no dedo de uma madame.
Todo objeto de patrimônio (bem) é como um farol para os indivíduos e populações navegarem em suas existência.
Assim, os indivíduos e populações ficam entre o panopticon foulcaultiano e os exemplos a serem seguidos libados pelos profissionais  do patrimônio, um impede outro incentiva.


[1] Li Foucault nos anos 80, aqui, por ser um texto que se pretende científico numa linguagem coloquial, vou usar o que for pratico e fidedigno.


PRÉ-SUPOSTOS "CIENTÍFICOS" E GESTÃO CULTURAL/AMBIENTAL



  Ciência e pressupostos não andam juntos.

            O longo de mais de vinte anos tenho visto vários pesquisadores, extencionistas, arte-educadores e outros caras pálidas revirarem a vida de quem não tem por objetivo acumular mas apenas viver o dia e quem sabe os próximos meses. Sim, é necessário que eles comam para que suas culturas tanto na dimensão material como na imaterial se perpetuem. Porém, vários profissionais, sem maior embasamento em história-antropológica partem de pressupostos salvacionistas, redentoristas como se fossem franciscanos ou madres Teresas que vão salvar pobres coitados.
            No afã de salvar acabam revirando a vida deles e os tornando ainda mais sem identidade pois,  o modo de vida (cultura) a que estavam acostumado, depois de tudo revirado não mais lhes serve e, para nossa sociedade, não estão preparados. Fabricar párias  sem querer é o que fazem estes “redentoristas”.
            Há mais de vinte anos alguns pré-supostos malditos se enraizaram mesmo dentro das academias que deveriam questiona-los. São eles: com turismo, artesanato e produção de ervas medicinais vamos salvar a “comunidade” tal.
            Disto decorrem varias mazelas: alem da perda dos saberes e fazeres tradicionais, via de regra também não conseguem vender o que tentaram lhes ensinar a produzir. Chegam a um ponto sem volta nem avanço. O resultado mais evidente é a fome e a dependência do bolsa família. Culturas são como delicadas orquídeas, difícil mante-las mas facilmente as destruímos com praticas erradas. Isto fazem os bem intencionados “redentoristas” de pobres povos caiçarenses faxinaleses, quilombolas e outros “enses” que inventarem. “Enses”, pois eles são renomeados e reenquadrados dentro de nossos pré supostos como outras coisas que prá eles, eles não são.
            Tem uma piada sobre o Garrincha que descreve estes caras. La vai: O treinador disse que Vavá deveria ir pelo meio, Pelé cruzar pela esquerda e Garricha estufar a rede do adversário. Então, Seu Manoel do alto de sua malandragem perguntou para o técnico: O time de lá já sabe disto? Eles concordaram? Vão deixar a gente fazer estas três jogadas?
            Seria cômico se não fosse trágico ver povos como grupos guaranis na porta da catedral tentando vender o artesanato que um redentorista disse prá eles que lhes daria o pão de cada dia. Ou ver um velhinho atravessar a baía de pinheiros e chegar com uma piroga lotada de vassouras artesanais de piassava e não vender uma, e chorar porque não tinha como dar de comer a sua família. Ou, ainda, um doutorando propor que índios deveriam criar paca (e implantar o projeto) porque paca é tão natural quanto os índios. Ainda bem que os índios, por séculos vacinados, comeram as pacas.
           Os pré-supostos recriam o outro como conhecimento falso e falso objeto a ser gerido porém que ao interferir na história material passam a ter o caráter de ente histórico ao modo de Gramsci, e podem detonar com comunidades e populações. A nossa visão a priori do outro é muito perigosa cultural e ambientalmente.
            Minha palestra visa trazer para o planeta Terra  estes avoados e bem intencionados que acabam se transformando sem querer em etnocidas. Sou movido pela seriedade científica e pela piedade cristã das vitimas destes “redentoristas’. A ignorância é o 8º sacramento mas mesmo assim mata.

            Existem outras formas


Marcello Polinari
Outubro,2010

PASSIVO AMBIENTAL DE UMA EMPRESSA. EXEMPLO (PCH)

Pequena central hidrelétrica (PCH), 
segundo definição da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), é uma usina de pequeno porte com capacidade instalada maior do que 1 MW e no máximo 30 MW.
Outro limite da PCH é o tamanho de seu reservatório, que para ser classificada desta forma, não pode ultrapassar os 3 km²1 .
As PCH compõem uma importante parte da geração de energia no Brasil e sua regulamentação é feita através da resolução nº 394 - 04-12-1998 da ANEEL2 .
Comparando com as UHE (Usinas Hidrelétricas de Energia), as PCH têm vantagens e desvantagens. Por serem menores, são mais baratas de construir, causam um dano ambiental menor, podem ser construídas em rios com menor vazão e contribuem para a descentralização da geração de eletricidade. Por outro lado, elas geram uma energia mais cara, pois nem sempre haverá fluxo d'água suficiente para fazer girar as turbinas, devido à seca em algumas épocas do ano, o que não acontece nas usinas maiores, onde sempre haverá água no reservatório. Wikipedia.http://pt.wikipedia.org/wiki/Pequena_central_hidrel%C3%A9trica



PEQUENAS USINAS HIDRELÉTRICAS



Primeiramente quero esclarecer que para europeus toda grande empresa/empreendimento é considerada uma PLANTA , um projeto, que visa lucro. Então usam o nome PLANTA.

        

Entre ambientalistas há o consenso de que é necessário pensar uma planta comparando-a a um ser vivo com seu ciclo vital para se fazer um EIA estudo de impactos ambientais e planejar a mitigação e reparação destes impactos em cada etapa deste ciclo.



Ou seja: ela nasce, é projetada e implantada. Nesta etapa ela tem impactos sociais, econômicos e ecológicos que devem ser avaliados.

Nesta avaliação é necessário levar em conta perdas e ganhos. O que a natureza perde e ganha, o que a sociedade local e a humanidade perde e ganha . Quem paga as perdas, será a empresa  ou nossos impostos?



A mesma avaliação necessita ser feita sobre o período de vida pungente da planta. Principalmente quem fica com a grande fatia de lucros e passivos ambientais.



Além disto, toda empresa morre por causas econômicas ou picaretagem. Na sua morte sobra um esqueleto e uma paisagem alterada que necessita ou ser recuperada como natureza/ área rural  ou recuperada como ambiente urbano/industrial. Normalmente isto é caríssimo e dificilmente os empresários põe na conta dos custos iniciais da planta e do EIA/E este ultimo e de economia. Isto, o passivo ambiental final,  tem um custo que DEVE ser levado em conta economicamente na rentabilidade da planta e ser distribuído por toda existência da planta desde seu projeto até a recuperação ambiental final. Quem vai pagar isto, será a empresa ou nossos impostos? Se forem nossos impostos a empresa é somente um pretexto, um meio para assaltar nossos impostos.



Um estudo deste, por exemplo para uma usina hidrelétrica, se for cientificamente sério, com abundancia de recursos humanos, técnicos e financeiros leva em média 7 anos. São historiadores, arqueólogos, geólogos, biólogos, antropólogos e outros tantos trabalhando intensivamente.  Isto está computado pelo empresário nos custo da planta ou fica apenas com aqueles  “EIA”  e RIMA que são copias comerciais uns dos outros? Eu li os EIAs de todas as grandes usinas do Paraná, eles parecem clones, a maioria feitos em dois ou 4 anos no máximo.



Ou seja, é necessário levar em conta bônus e ônus na implantação, na operação e no desmanche e recuperação ecológica e ambiental. Quem fica com o bônus e como se divide o ônus entre natureza, sociedade e especialmente nossos impostos?



Sei que aproximadamente 20 a 25 % do território brasileiro está sob a proteção de alguma legislação cultural e/ou ambiental. Também sei que somos um país pobre, principalmente pela concentração da renda. Necessitamos gerar emprego digno para a população.



Sei também que o que predomina na economia brasileira são as chamadas COMMODITES, o que significa uma exploração extensiva, agressiva, concentradora e de baixa tecnologia.



Além disto, na minha cabeça não entra o conceito de “INDUSTRIA EXTRATIVA”. Leio isto como extrativismo em escala industrial e altamente tecnificada.



Ou seja, toda planta, entendida como projeto econômico que extrai da natureza e da sociedade com alta tecnologia, pra mim é extrativismo tecnificado, não é indústria que caiba no século XXI.



Então, temo o tecnicismo, o academicismo não engajado e encastelado, assim como temo os ditos verdes românticos que querem evitar que “empresários façam mal pra mãe natureza”. Necessitamos de seriedade e bases científicas sem picaretagem de um lado nem romantismo do outro.



Penso que o capitalismo, a democracia e a república são coisas novas na humanidade e podem melhorar com mais humanismo. A ciência ambiental nem se fala, é um neonato na História. Agora que esta desenvolvendo um cabedal de conceitos próprios.

Isto aplicado a questão do não tombamento ou tombamento da cachoeira de XXXXX onde querem fazer uma pequena usina hidrelétrica. Pergunto, temos dados científicos, econômicos imparciais suficientes para decidir tombar ou não.

Existe o fato de que esta (XXXXX) é uma das grandes e belas cachoeiras do Paraná comparável a outras que desapareceram, esta catalogada como área de relevante interesse de preservação deveria ser AREA DE RELEVANTE INTERESSE TURISTICO, além disto tem proteções do IAP/SEMA e do IBAMA. EU pessoalmente gostaria de ver um perímetro transformado em Parque Municipal. Os municípios podem e devem ser atuantes legal e protagonisticamente na proteção de bens culturais e ambientais, não deixando tudo para o Estado e a União.

Ok, paixões a parte, pergunto. Qual a vida útil desta usina. Quem fica com o bônus e com o ônus de cada etapa, especialmente do desmanche e recuperação ecológica e ambiental da área, qual a data estimada pelos engenheiros para o “falecimento” desta planta ?

Macello Polinari

Curitiba, 9 de outubro de 2012.